Artigos de Dom João Justino

Coragem para deixar os grandes centros urbanos

Nos últimos dias, diante da decisão do governo cubano de não mais participar do programa Mais Médicos, retornou a discussão acerca da disposição dos médicos brasileiros para o trabalho em regiões menos desenvolvidas e distantes das cidades de médio ou grande porte do Brasil. Sem entrar em discussões políticas, é histórica a dificuldade do atendimento médico no interior do país. Dessa forma, é comum a falta de professores nas mesmas regiões, e de religiosos, inclusive. Isso não quer dizer que não possamos encontrar excelentes médicos, professores e religiosos atuando fora dos círculos urbanos. Mas quer dizer que estes são em número insuficiente para o atendimento da população que não migrou para as médias e grandes cidades.

Fala-se que mais de oitenta por cento da população brasileira vive em cidades. Os centros urbanos exercem grande fascínio sobre as pessoas. Não obstante o caos de algumas cidades, o ideário de independência, a fantasia do anonimato, a “magia” dos shoppings, a sensação de liberdade, o frenesi dos entretenimentos, a multiplicidade de opções em todos os setores da vida, tudo isso seduz crianças, jovens, adultos e, até mesmo, os idosos. Outdoors e painéis de LED exibem produtos de beleza, de esporte e de alimentação como se fossem sereias a encantar os transeuntes. A intensidade das luzes parece brincar com o sonho de um mundo de possibilidades. Carros e motocicletas concorrem para que todos possam chegar onde desejam: casa, trabalho, escolas, clubes, igrejas, academias, teatros… Vídeos em todos os lugares apontam para a existência de uma sociedade da iconofagia, isto é, uma sociedade que se alimenta, se nutre de imagens a todo o tempo.

Um dos principais desejos da maioria da população é habitar as médias e grandes cidades. As estatísticas confirmam. Portanto, falar em viver e trabalhar no interior, em locais desprovidos dos bens e serviços que as maiores cidades oferecem e distantes geograficamente dos centros urbanos mais desenvolvidos, parece destoar do canto uníssono e surdo que apregoa: é melhor viver nas cidades. Mas quem prestará serviços e cuidará dos menos de vinte por cento da população que ainda reside e resiste nas pequenas cidades do interior, ou dispersos na região amazônica?

No passado, duas profissões foram exaltadas por guardarem relação com o sacerdócio. A medicina e o magistério, no linguajar comum, foram comparados ao sacerdócio. Os elementos de comparação eram, sem dúvida, a dedicação ao trabalho, o desapego de si mesmo e o respeito reverente à vida humana para oferecer-se em favor do outro. Alguns dirão que esta forma de pensar foi superada e não há mais chance de se propor essas atitudes como valores de nosso tempo.

Penso diferente. O trabalho não deve se transformar em pura mercadoria. O ofício não deve se reduzir a um elenco de funções pelas quais mereço ser bem remunerado. As energias do trabalho não precisam ser todas barganhadas por moedas que dão acesso ao pleno consumo. É preciso ser corajoso para romper com certa idolatria do modus vivendi nas grandes cidades. Médicos, professores e religiosos, entre outros profissionais, poderão descobrir que é possível se realizar e ser feliz lá onde o modo de vida não é predominantemente urbano. E na falta das benesses que a cidade oferece, poderá emergir espaço para tocar o mistério da própria “profissão”.

Dom João Justino de Medeiros Silva

Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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