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Cristo trabalhou com mãos humanas

            O dia 1º de maio é celebrado em muitas partes do mundo como “dia do trabalho”. Atualmente, muitos preferem chamar de “dia dos trabalhadores”, enfatizando com isso os homenageados. A origem dessa homenagem remonta ao final do século XIX, palco de lutas operárias nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, a data se tornou oficial por decreto do presidente Arthur da Silva Bernardes, em 1924, e no período getulista foi utilizada para divulgar leis e benefícios trabalhistas. A Igreja, por meio do Papa Pio XII, atribuiu como patrono dos trabalhadores São José Operário, instituindo para o mesmo dia essa memória facultativa.

O trabalho humano ocupa boa parte da doutrina social da Igreja, desde seu nascedouro, em 1891, com Leão XIII. Inspirada nas sagradas escrituras, a Igreja ensina que “o trabalho pertence à condição originária do homem e precede a sua queda; não é, portanto, nem punição nem maldição” (Compêndio de Doutrina Social, 256). Jesus mesmo revelou a dignidade do trabalho ao ser chamado “filho do carpinteiro”. O Concílio Vaticano II cunhou essa expressão: “Trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana, amou com coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós…” (Gaudium et spes, 22).

A Igreja, fiel à sua missão evangelizadora, proclama o evangelho do trabalho, isto é, inspira-se no evangelho de Jesus para tratar da realidade do trabalho e de tudo o que se relaciona com a dignidade dos trabalhadores e com o respeito aos seus direitos. Por isso, temas como as relações entre trabalho e capital, entre trabalho e propriedade privada, o repouso festivo, o papel do Estado e da sociedade civil na promoção do direito do trabalho, o direito à remuneração equitativa e distribuição de renda, o direito de greve, a importância dos sindicatos e outros temas afins pertencem ao ensino social da Igreja. Isto pode ser conferido no Compêndio de Doutrina Social, especialmente no Capítulo VI, dedicado ao trabalho humano.

Portanto, quando nós bispos, sacerdotes, leigos e leigas participamos de debates de temas sociais, entre eles especialmente o trabalho, nós o fazemos cônscios de que não podemos nos eximir de contribuir para a edificação de um país alicerçado na ética e na justiça social. É, por isso, que ao considerar o importante momento de discussão sobre a reforma da Previdência, encaminhamento que atinge diretamente a vida de milhões de trabalhadores, o Conselho Permanente da CNBB, em nota de 28 de março deste ano manifestou-se com o seguinte apelo: “Fazemos um apelo ao Congresso Nacional que favoreça o debate público sobre esta proposta de reforma da Previdência que incide na vida de todos os brasileiros. Conclamamos as comunidades eclesiais e as organizações da sociedade civil a participarem ativamente desse debate para que, no diálogo, defendam os direitos constitucionais que garantem a cidadania para todos. Ao se manifestar sobre estas e outras questões que dizem respeito à realidade político-social do Brasil, a Igreja o faz na defesa dos pobres e excluídos. Trata-se de um apelo da espiritualidade cristã, da ética social e do compromisso de toda a sociedade com a construção do bem comum e com a defesa do Estado Democrático de Direito”. Isso porque cremos que Cristo trabalhou com mãos humanas.

+ João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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