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Diácono Waldelir se tornará padre, dia primeiro de junho!

Conheça nesta publicação, um pouco sobre a vocação do diácono Waldelir Soares Araújo, que será ordenado padre, dia 1º de junho, em Bocaiuva. A missa solene será presidida por dom João Justino na Igreja Senhor do Bonfim, às 10h. Com o lema escolhido na ordenação diaconal, ocorrida no dia 03 de agosto de 2018, “Chamaste-me Senhor, aqui estou” (1Sm 3,5) ele foi o último diácono transitório ordenado por dom José Alberto Moura na arquidiocese quando ainda estava no governo. Na entrevista, o diácono falou sobre sua vocação aos leitores da 13ª edição da revista Clarão do Norte nas páginas de 11 a 15.  Boa leitura!

VOCAÇÃO____________________________________________________________________

“Chamaste-me Senhor, aqui estou!” (1Sm 3,5)
“Se entre todas as palavras eu pudesse escolher uma, escolheria a palavra gratidão por tudo que vivenciei nesses dias. Gratidão pelo amor de Deus, por minha vocação, por toda oração feita, por toda mensagem enviada e recebida, pelos diversos meios de comunicação, por toda voz que brindou a celebração, por meus familiares… seria impossível enumerar as bênçãos recebidas.  Obrigado, Senhor, me amaste com o coração de cada pessoa que me acompanhou ao longo da minha vida! Agora, pela Graça de Deus, não por merecimento próprio, sou Diácono da Santa Igreja de Cristo e peço ao Senhor que me ensine a lavar os pés da humanidade! Do meio do vosso Templo Santo, minha alma exclama: “Bendito és Tu, Senhor, pelos séculos dos séculos”. Amém.

Assim agradeceu em sua página nas redes sociais, ainda sob o efeito da emoção vivenciada na sexta-feira, 03 de agosto de 2018, na Matriz de Nossa Senhora da Conceição e São José, em Montes Claros, o neo-diácono Waldelir Soares Araújo que há 14 anos, depois de uma longa caminhada franciscana, optou pelo sacerdócio e deu passos significativos.

“A celebração foi linda, magnífica. Eu vi a igreja aberta e entrei antes de ir para casa, mas quando percebi esse monte de padre, fiquei curiosa e perguntei o que estava acontecendo, e aquele jovem ali (apontou ela sem saber para o ordenado da noite) disse-me: Hoje é o dia da minha ordenação, fique. Eu fiquei!”, afirmou dona Ana Lúcia Costa Sampaio de 76 anos que pela primeira vez viu de perto uma ordenação diaconal e se lembrou de quando jovem não teve a coragem de dizer o sim. “Eu até tentei, mas na primeira negação dos meus pais, recuei”, finalizou com lágrimas nos olhos, que escorriam no rosto já marcado pelo tempo.

Mas ele não. Waldelir foi firme em sua decisão até o fim. Desde pequeno, sua mãe dona Maria Ivanilde Soares, religiosa que era, fazia questão de levar os filhos para a igreja. A primeira obrigação de domingo era a missa das crianças. “Eu ficava contando os dias para chegar o dia da missa, gostava mesmo da hora do abraço da paz e, já com um largo sorriso nos lábios, contou animado:  O padre Antônio Rocha (Monsenhor Rocha) era o padre da Igreja do Sagrado Coração de Jesus na época, e fazia questão que no abraço da paz, as crianças formassem fila para que ele pudesse abraçar uma a uma. Quando chegava a minha vez, eu o abraçava e voltava de novo para a fila para repetir o ato” (gargalhada).

EU VOU SER PADRE: E com isso o tempo foi passando e o menino firmando sua fé. Com a ajuda da mãe, iniciou escondido na igreja servindo como coroinha. O pai, Antônio Campos de Araújo, o Toninho farmacêutico, muito sério e de uma postura mais rígida, dizia que não havia criado filho para usar saia (gargalhada). Padre então, nem pensar! E o tempo passou. O menino cresceu e com ele a vocação ia lhe perturbando. “Eu vou ser padre”, dizia o moleque. Não vai não, retrucava o pai.

POBREZA: Mas o chamado de Deus foi mais forte. E aos 14 anos de idade, o menino que nunca saíra de Bocaiuva foi morar em Santos Dumont, zona da mata mineira. Viveu, então, 13 anos como frade. Viajou por muitos lugares, experienciou situações que se confundiam com a vida de Waldelir quando criança. Sim, pois conheceu de perto a pobreza que também era realidade em sua casa. “Quando éramos crianças, contou ele, havia dia que só tínhamos para comer o feijão. E meu pai sofria com isso. Saía todo dia para buscar o alimento diário. E o que conseguia, nós comíamos.  Enfermeiro prático, ele era chamado a todo momento para socorrer aqueles que estavam enfermo”. E o pagamento? Bom, quando tinham, era uma galinha, uma abóbora, um litro de leite ou então um obrigado. “Minha mãe falava com ele que não podia ser assim, que ele teria que cobrar pelo atendimento dispensado, mas meu pai dizia: “Véia, (maneira como chamava sua esposa) Deus dá o jeito” e Deus sempre dava mesmo.

IRMÃ GRAÇA: “Falar da vocação é sempre uma alegria para mim. Minha experiência começou na Paróquia do Sagrado Coração de Jesus em Bocaiúva. Padre Antônio Rocha (Monsenhor Rochinha) era o padre na época.  Eu queria muito ser padre. Então onde o padre ia nas comunidades eu o seguia. Se tivesse 3 ou 4 missas no dia, eu participava de todas. Então conheci a Irmã Graça, freira Franciscana da Providência Santíssima. Ela me apresentou a Ordem dos Frades no Noviciado de Montes Claros. Então, fiz Aspirantado em Santos Dumont; Postulantado em São João Del Rei; Noviciado em Montes Claros, Filosofia em Betim, Missão em Roraima, morei por um tempo no Convento em Olímpia – São Paulo e São José do Rio Preto.

EXPERIÊNCIA: A pobreza que convivi não era diferente. Mas doía. Os franciscanos, geralmente quase 100% deles, vivem nas periferias. Justamente para ficarem mais perto daqueles que vivem à margem da sociedade. Foi uma experiência que gostei muito e que marcou minha vida, minha história. Então vi e convivi com realidades marcantes na Amazônia, Roraima (trabalhei com crianças vítimas de exploração infantil e prostituição).  Por causa da fronteira com a Guiana Inglesa e Venezuela as coisas boas passavam, mas as ruins também. O tráfico de drogas e órgãos era uma dura realidade.

IGREJA EM SAÍDA: Ali conheci uma Igreja profética. Dom Roque Paloschi era o bispo de Boa Vista naquela época e fazia questão de percorrer todas as comunidades. Quantas vezes ele era visto subindo e descendo o rio para evangelizar (diga-se de passagem, viagem de mais de 6 a 7 horas de barco porque não tem estradas como aqui, lá é quase tudo água). Convivi com essa dura realidade de perto. Eles já realizam lá a igreja em saída que tanto o Papa nos pede. Em Boa Vista trabalhei no Centro Sócio Educativo com jovens da comunidade encabeçando o projeto “Peregrinos de Assis” (uma cantata que conta a vida de São Francisco). Ensinava violão e música aos jovens. “Foi muito marcante em minha vida. Até hoje lembro daquelas crianças. Permaneci por lá um ano e depois tive que sair para estudar teologia”.

CARISMA DE SÃO FRANCISCO x SACERDÓCIO: Sempre amei o carisma de São Francisco de Assis. Cuidar daqueles que mais necessitam, viver o Evangelho em fraternidade – pobre, casto e obediente, configurar-se a Cristo Crucificado, tudo isso e muito mais faz parte do carisma de São Francisco. A ousadia dele até hoje lança luz em nossa Igreja.  Porém, dois fatores foram determinantes para que eu deixasse a Ordem.  Primeiro, minha vocação para o sacerdócio. Esta gritou mais alto. Poderia como frade, também ser padre. Mas Deus quer mais de mim. Ele me chama ao presbiterato. Foi um longo e sofrido período de discernimento. Como padre posso ser franciscano sem ser frade. O segundo fator foi meu pai. O estado de saúde dele só agravava e minha mãe não estava mais dando conta. Era preciso conseguir meios de onde não tínhamos para pagar o tratamento. Foi um período longo de enfermidade e gastos que viveu minha família e eu ausente por causa da missão. Aquilo tudo mexia comigo, pois como frade eu era enviado cada vez para mais longe. Não foi uma decisão fácil. 13 anos já se tem uma história, já se cria raízes, já se vê frutos.

O REGRESSO: Ao ter a certeza da volta, ganhei do amigo Frei Emanuel Fernandes o quadro “O Pai das Misericórdias”.  O artista que pintou esta obra, Rembrandt, quando o fez, estava vivendo um período de declínio em sua vida. Ele retratou na tela luz e sombras, porém, o pai que está no centro é o que acolhe e todos os pontos de luz apontam para ele. Falou emocionado do quadro, porque foi o sinal que ele pediu a Deus, angustiado como estava, se realmente estava fazendo a coisa certa. E ao ser aceito por Dom José Alberto na Arquidiocese e depois encaminhado ao seminário, Monsenhor Silvestre sem saber do quadro que o então seminarista carregava repetiu o gesto do pai misericordioso nas escadas do Seminário Maior e lhe disse: “Você vai ser muito feliz aqui, seja bem vindo. Aqui é sua casa!” E o abraço dele me reconfortou e confirmou minha escolha.

ELE ME VIU DE HÁBITO: Sim, a primeira vez que meu pai foi me visitar em Belo Horizonte, ainda no noviciado, eu usava o hábito permanente. Quando abri a porta e deparei com ele, nos emocionamos. Não lembrei de sua jura quando eu era criança e ele passou a se orgulhar e dizer para todos que tinha um filho padre. Eu dizia baixinho: Pai, não sou padre, sou frade. Ah! Não precisa ninguém saber desse detalhe (neste momento, o neo-diácono não se segura, e rimos alto). E recordou: “No dia do seu enterro, fiz questão de colocar o cordão que eu usava neste dia na cintura, no caixão dele”.

GRATIDÃO:  No dia de sua ordenação diaconal, Waldelir falou para uma igreja viva e missionária.  Iniciou os cumprimentos dizendo: “Amaste-me Senhor por primeiro e, por isso eu disse: “Chamaste-me Senhor, aqui estou (1Sm 3,5). E virando-se para os arcebispos, Dom José Alberto e Dom João Justino, se referiu a cada um deles como “pai”. Especialmente a Dom José, disse: “Ao senhor Dom José Alberto, que me acolheu aqui, nesta Arquidiocese, minha gratidão. Logo no primeiro momento o senhor se mostrou como Pastor, escutando-me atentamente. Percebia que a medida que eu contava minha história, o senhor não só escutava, mas queria entender, fazer parte dela. Ao final da conversa, Dom José me olhou e disse: Essa é a sua terra, sua Arquidiocese, portanto você é sempre bem vindo! Por ter confiado em mim, por ter me impulsionado a seguir adiante, muito obrigado.  O senhor marcou minha vida, oxalá eu consiga essa característica que é tão forte em seu ministério: misericórdia”. Depois, dirigindo-se ao arcebispo coadjutor, falou: “Dom João Justino, desde o início de seu ministério o senhor se mostrou próximo, atento, ouvinte, quis conhecer e acompanhar. Visitou meus pais, dando a unção dos enfermos a meu pai, um gesto que jamais será esquecido na vida de todos os meus familiares. Obrigado, Dom João, por acreditar em mim, por sonhar comigo e por me incentivar de tantas formas. Eu desejo de coração ser um atento colaborador na tarefa de semear o Reino de Deus”.

“Ao Monsenhor Silvestre, pai, amigo e irmão, veja como seu sacerdócio é tão fecundo” (apontando para os padres que acompanhavam a cerimônia), “veja quantos filhos o senhor já gerou e gera para a Igreja Particular de Montes Claros! Lembro com carinho da minha chegada ao Seminário, ainda tímido, me recordo de uma cena que jamais sairá de minha memória. Naquela noite tinha pedido ao Senhor que me confirmasse se aquele era mesmo o caminho que eu deveria seguir. E ali, no portão do Seminário Maior Imaculado Coração de Maria, o senhor foi me acolher com um abraço caloroso e enquanto me abraçava disse-me: Você será muito feliz aqui. Este abraço me lembrou da Parábola do Pai das Misericórdias que abraça fortemente o filho que regressou para a casa. Peço a Deus que eu consiga exercer meu ministério com a marca de seu pastoreio Monsenhor. O nome de Deus é amor e vejo isso concretamente em cada ação que realiza”.

“Aos meus irmãos e amigos seminaristas, louvado seja Deus pela vida de cada um de vocês. Ao longo desse tempo, muitos de vocês foram Cirineus que me ajudaram a carregar a cruz. Pessoas com corações extremamente disponíveis e sensíveis, me acolheram e me fizeram participar da singeleza do cotidiano, onde reside Deus e suas surpresas”. E virando-se para a assembleia, exclamou: “É preciso amar nossos seminaristas enquanto estão no caminho, na solidão do quarto do seminário, nas dores, no silêncio”.

Ao falar para amigos e familiares disse já não contendo a emoção que tomava conta daquele coração em festa: “Minha mãe, muito obrigado! A senhora foi a pessoa que mais me ajudou, quantas ligações, conselhos a todo tempo, não existia hora certa, sempre estava disposta a me escutar e a me apoiar. A senhora é um testemunho vivo para mim, durante anos cuidou de meu pai que ficou acamado, sempre paciente e perseverante, mesmo com uma cruz tão pesada, ajudou a carregar a minha”. Uma pausa para o choro que teimava em sair. Certa vez, cansado e desanimado da caminhada ligou a mãe dizendo que iria embora para casa e ouviu o sábio conselho materno: “Paciência meu filho, a porta que Deus abre homem nenhum pode fechar. Vamos colocar tudo nas mãos de Deus”.

E então, a emoção tomou conta de todos que acompanhavam aquele relato: “Infelizmente meu pai não está aqui fisicamente hoje”, disse ele com voz embargada. “Já fraco e debilitado pela doença, assim que soube que minha ordenação fora aprovada, fui contar-lhe pessoalmente. Pai vou ser ordenado! Perguntei a ele: O Senhor vai, não é?  Com as mãos firmes segurou meu braço e disse: Vou… Infelizmente não conseguiu esperar e no dia 24 de junho deste ano, partiu para a casa do Pai. Me lembro sempre da frase que ele adorava e que deixou escrito no guarda-roupas de nossa antiga casa:  Seja como o sândalo que perfuma o machado que o fere.”

Diácono Waldelir citou ainda amigos que fizeram parte de sua história e vieram celebrar este dia especial:  Pe. Robson da Diocese de Uberlândia e seu irmão Rafael, a Irmã Ana Paula, de Belo Horizonte, os Frades Menores, filhos diletos de São Francisco, Frei Aécio, Frei Emanuel e Frei Gutierrez: “Levem à Ordem Franciscana meus sinceros sentimentos de carinho e gratidão por tudo que vivenciei ao longo deste caminho formativo”, disse.  Lembrou-se, também, de agradecer ao Padre Dorival Barreto: “Aprendi muito com o senhor, um bom sacerdote deve ser um homem da palavra, mas também do silêncio e contemplação, como o senhor é, o zelo pastoral ensinou-me que a evangelização passa por detalhes, que são delicadezas de Deus. Obrigado pela acolhida e convívio”.

E para encerrar não se esqueceu do seu primeiro amor: “ao povo de Alvação, onde comecei a minha presença pastoral, agradeço pelo apoio e oração. Em especial agradeço ao povo da minha amada Bocaiúva, terra do Senhor do Bonfim, obrigado pelas orações, incentivo e presença, gratidão pela vida de cada um de vocês. Quando alguém dizia para mim: “Saiu de casa muito cedo. Respondia: Sairia de novo, se assim o Senhor me chamasse mais novo ainda”. Inicia-se agora um tempo importante da formação do diácono que aspira o ministério presbiteral. Viver o diaconato numa comunidade paroquial e crescer na experiência do serviço ao Povo de Deus. Parabéns diácono Waldelir!

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***Viviane Carvalho – Assessoria de Imprensa Arquidiocese de Montes Claros
Contato: (38) 9905-1346 (38) 9 8423-8384
e-mail: [email protected] 

 

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