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João Batista e a austeridade

            São João Batista tem duas festas ligadas ao seu nome inscritas no calendário litúrgico: a sua natividade, celebrada no dia 24 de junho, e o seu martírio, rememorado no dia 29 de agosto. Mais popular, no entanto, é a data de seu nascimento, ocasião de muitos e animados festejos. Seu papel de precursor do Messias o deixou ligado diretamente à missão de Jesus. Seu cognome, Batista, se deve não apenas porque batizava nas águas do Jordão aqueles que acorriam a ele aceitando o apelo à conversão, mas sobretudo porque Jesus recebeu o batismo de suas mãos. Sua pregação direta e incisiva interpelava as autoridades e sua morte sinalizou a coragem profética com que enfrentou os poderosos.

            De João Batista os evangelhos narram seu estilo de vida mais do que sóbrio, verdadeiramente austero. Na iconografia quase sempre o encontramos vestido com peles de animais. As palavras de Jesus a seu respeito indicam a radicalidade de um modo de vida que soa muito diferente para aqueles tempos e, muito mais, para os tempos de hoje. Segundo o evangelho de Mateus, Jesus falou de João às multidões com as seguintes palavras: “Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Mas que fostes ver? Um homem vestido de roupas finas? Mas os que vestem roupas finas vivem nos palácios dos reis. Então, que fostes ver? Um profeta? Eu vos afirmo que sim, e mais do que um profeta” (11, 7b-9).

O deserto é uma primeira indicação da austeridade de João. Ele pregava no deserto da Judéia, região montanhosa que se estende entre a cadeia central de Israel e a depressão do Jordão e do mar Morto. O deserto é lugar árido, desprovido de abrigos facilmente acessíveis, que exige a força física para caminhar, sob forte sol e em terreno arenoso. A pergunta de Jesus “Que fostes ver no deserto?” provoca as multidões que o escutam a recordar-se da resistência profética de João qual “voz que clama no deserto” (Mt 3, 3).

João se alimentava de gafanhotos e mel. Segunda indicação de sua austeridade. A sobriedade de sua alimentação denota tanto a escassez de frutos no deserto quanto o rigor de uma escolha pessoal, que tomava toda distância da fartura dos banquetes. Seus hábitos alimentares não indicavam uma vaidosa dieta, mas a radical pobreza. Outro elemento que aponta para a austeridade do Batista são suas vestes. Os que vestem roupas finas habitam os palácios, denunciava Jesus. João Batista vestia roupas de pelos de camelo e um cinturão de couro em torno dos rins (cf. Mt 3, 4). Também a sua pregação chamava à austeridade. Quando as multidões lhe perguntavam sobre o que deviam fazer, ele respondia: “Quem tiver duas túnicas, reparta-as com aquele que não tem, e quem tiver o que comer, faça o mesmo” (Lc 3,11).

Nos dias de hoje a austeridade parece ser repelida. A palavra de ordem, propagada pela cultura consumista, é conforto. Muitos trabalham freneticamente para comprar e usufruir dos novos produtos do mercado. Um pouco da austeridade de João Batista faria bem a todos: às famílias, para formarem pessoas com o sentido da gratidão; aos governantes e políticos, para rechaçarem a tentação da corrupção; às igrejas, para retomarem o estilo de vida pobre de Jesus; e a nós todos, para recuperarmos o sentido do essencial.

+ João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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