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O cuidado no uso da palavra por quem preside

            Presidir é uma ação que sempre denota significativa importância em nossa cultura. Em associações civis, nas organizações governamentais ou não governamentais, nas igrejas, no mundo da política, na maioria dos grupos em que o exercício do poder há de ser organizado, é comum a presença de alguém designado ou eleito para presidir. Há presidentes em pequenas associações e há presidentes de nações. Na liturgia católica, a ação de presidir é um serviço que requer esmerada preparação, ofício confirmado por uma autoridade e digna atuação. É assim, também, em muitas outras instituições.

            A palavra presidir vem do latim “prae-sedere” que, etimologicamente, quer dizer “sentar-se diante de”. Por isso mesmo, para quem preside há sempre um lugar de destaque, uma cadeira presidencial. Geralmente, essa cadeira se destaca sobre as outras e se situa em lugar que converge a atenção da assembleia reunida. Na tradição católica, o bispo, como aquele que preside a Igreja local, tem na catedral a sua “cátedra”, cadeira onde somente ele se assenta.

            O ato de presidir, no entanto, não define apenas o sentar-se em uma cadeira. Muito mais que isso, qualquer ato de presidência supõe a capacidade de, uma vez sentado diante de outros, fazer uso da palavra de modo a estimular a participação, coordenar processos, abrir perspectivas, ponderar soluções, despertar os bons ânimos, situar o conjunto dos acontecimentos, reconhecer os feitos, levantar questões, ampliar horizontes de compreensão, propor encaminhamentos, sustentar projetos e muito mais. Dito isso, compreende-se que a fala de quem preside tem um peso de enorme importância. Em razão disso, é protocolar, em diversas instituições, que aquele que preside fale por último, como modo de realçar a importância da esperada palavra.

            Quando cabe àquele que preside dizer palavras que corrigem direções e determinam novos limites, é preciso prudência e sabedoria para não ocasionar polêmicas que tornem obscuras as saídas e firam as pessoas. Aquele que preside não pode se esquecer de que sua tarefa é, antes de tudo, valorizar as pessoas, para que a instituição cumpra a sua função.

            Uma palavra inadequada, chula, desrespeitosa ou agressiva da parte de quem preside constitui-se num enorme desserviço à presidência. Fere não só pessoas, mas o símbolo que está inscrito no uso da cadeira presidencial. Por isso, a título de exemplos, não combinam com a presidência da liturgia, com celebrações religiosas, as brincadeiras próprias de quem dirige uma plateia ou um show. Nem pode combinar com quem preside instituições o despreparo para ouvir o contraditório e, na hora adequada, ponderar e propor. Muito menos poderá combinar com quem preside uma nação dirigir citação jocosa ou desrespeitosa a membro de outra nação.

            Na poesia de Pe. Zezinho está condensado o ideal da palavra de quem preside. Ele canta: “Dá-me a palavra certa, na hora certa e do jeito certo e pra pessoa certa. Palavra é como pedra preciosa”. Mas isso requer talento, sabedoria e humildade. Talvez não seja para todos.

+ João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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