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O desafio de participar ou a ascese da participação

            A palavra ascese vem do grego askésis (do verbo askeô) e significa “exercício” ou “treinamento esportivo”. Platão a utilizou com o sentido de “treinamento” ou “prática moral ou filosófica”. Ausente do Novo Testamento, a palavra aparece em escritos de Padres Apostólicos com sentido o filosófico de “praticar a paciência” (Inácio de Antioquia, Policarpo, 9, 1) ou, ainda, aplicada ao martírio (Martírio de Policarpo, 18, 2). A ascese seria, então, compreendida como um treinamento em vista de um fim que se pretende alcançar. Podem ser citados os esforços dos desportistas e artistas, das privações alimentares de certas dietas, das greves de fome, do compromisso do trabalho cotidiano, da disciplina pelo êxito na sociedade. Poderia se falar de uma resistência paciente.

            As transformações sociais, econômicas, culturais e pessoais costumam se apresentar como desafios que pedem muita criatividade, persistência, lucidez e empenho. Arrisco a dizer que as alternativas somente chegam como resultado da ascese. Em outras palavras, novas respostas geralmente são encontradas por quem de fato vive, trabalha, exercita-se buscando e construindo as esperadas alternativas. Elas não caem do céu. Esse modo de pensar é contrário aos daqueles que se colocam como apáticos, indiferentes, acomodados, subjugados, incapazes. Os grandes pensadores, cientistas, inventores e empreendedores tiveram suas vidas marcadas pela dedicação, persistência e coragem. Não há outro caminho.

Nada fere mais a busca de alternativas que o imobilismo, entendido como a indiferença, quase a letargia, que nos ameaça todos os dias. Não apenas a dimensão política se define positivamente pela participação, mas também a dimensão eclesial. E para os cristãos esta se funda na experiência pessoal do Deus Uno-Trino. Ninguém pode pensar Igreja fora do horizonte comunitário, que é a forma intrínseca da Igreja realizar-se. A forma da Igreja ser é a comunhão. E a comunhão, por si mesma, clama pela participação.

Quase sempre há uma face vaidosa no ato de participar, no fundo bastante enganadora. Há, no entanto, outra face que chamo também de ascética. Participar significa comprometer-se, trabalhar, ser capaz de dialogar, de reunir-se a outros e com outros, de renunciar, de superar dificuldades, de enfrentar desafios… Mas, é no exercício da participação, nas diferentes instâncias, que se experimenta a dimensão política da vida social e a comunhão da vida eclesial. Participar significa correr o risco de buscar e não encontrar, de correr e de não chegar, de lutar e não vencer. Mas, sem riscos não há vitórias.

Urge-nos perguntar qual tem sido o nosso grau de envolvimento e de participação na vida de nossa sociedade, no mundo da política, nas instituições às quais nos filiamos. Ora, se existe uma alternativa para qualificar, por exemplo, a vida social, política e eclesial, essa é, em primeiro lugar, a nossa participação ativa nos processos desses âmbitos da vida. Mas, a participação custa e, por isso, é ascética. E se alguém pretende algum êxito em favor das mudanças, não encontrará melhor caminho senão o de participar.

+ João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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