Artigos de Dom João Justino

O desastre de querer só para si

O processo de socialização de uma criança é, na verdade, o caminho de sua humanização. O novo ser humano que é dado à luz deve ter no seu desenvolvimento primário chances de constituir o seu “eu” a partir da relação com o “outro”. Por vezes, chamamos esse processo de natural. Todavia, mais precisamente, deveríamos chamá-lo de cultural. A criança assimila a cultura à medida que adquire a linguagem e elabora os rudimentos da consciência de si e da existência do outro. A título de exemplo, é comum encontrar crianças que resistem compartilhar o uso de seus brinquedos. Será a palavra de outro – especialmente a palavra dos pais – a apontar a possibilidade enriquecedora de brincar e jogar com outras crianças, superando um apego que resulta em isolamento. Pela palavra se educa para o sentido do outro e do grupo. Nessas e noutras situações, alguma pirraça precisa ser enfrentada pelos responsáveis que, sem ceder ao desejo da onipotência infantil, abrirão perspectivas de socialização e de humanização.

Todos nós passamos por esta etapa de crescimento e de desenvolvimento psíquico. No entanto, o desejo de querer só para si parece persistir em nosso imaginário. Adolescentes, jovens e adultos, às vezes, podem ter em outras proporções as mesmas reações de uma criança que retém em suas mãos um objeto e chora para não ter de deixá-lo ou perdê-lo. Não poucas vezes, o impulso de querer só para si estoura em momentos como de uma aglomeração de pessoas às portas das lojas em liquidação, ou na abertura de portões de um estádio, ou na saída de um grande evento até mesmo religioso. Experimente distribuir alguma coisa gratuitamente para um grande grupo e você perceberá logo como aflora nas pessoas uma pressa que as faz avançar e pegar – ter nas mãos como crianças – o que se distribui. O mesmo se verifica, lamentavelmente, quando ocorre acidentes nas estradas com caminhões portando cargas. Logo surge uma turba que vem e saqueia, carregando, sorridente, o que não lhe pertence.

Tenho a impressão de que o sentido do outro não tem presidido as relações sociais. Vejo motoristas desrespeitando as leis de trânsito com a tranquilidade de alguém que desconhece, em absoluto, seu limite. Quase que a dizer: só eu existo e o caminho deve estar livre somente para mim. Os que cedem à tentação da corrupção, tomando para si o que é do povo, não fazem o mesmo?

Até em comunidades eclesiais encontra-se a ressonância de um comportamento que revela pouca maturidade. Assusta-me a reação de pessoas adultas quando se decide, por exemplo, a mudança de um sacerdote para lhe confiar outra missão, certamente considerada digna e necessária. Pelas redes sociais, sobretudo, muitos se infantilizam na postura, na linguagem e na incapacidade de abrir mão do que literalmente nem sequer lhes pertence.

Sim, é um desastre querer somente para si. Para os discípulos de Jesus Cristo é sempre necessário rever as próprias atitudes. Não podemos agir como crianças que fazem pirraça e com as artimanhas de adultos boicotamos e destruímos quando não somos atendidos em nossos desejos. É preciso evangelizar nossos comportamentos. Do contrário não seremos sal da terra e luz do mundo. Estaremos mais próximos do mofo e das trevas.

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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