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Reitor da Unimontes preside aula inaugural da quarta turma da Escola de Fé e Política

Aconteceu neste sábado (11/05), no Colégio Berlaar Imaculada Conceição, a aula inaugural e o 1º Módulo da Escola de Formação em Fé e Política para Cristãos Leigos e Leigas da arquidiocese de Montes Claros, cujo tema foi “análise de conjuntura, econômica, eclesial e política com instrumentos de como fazer uma análise de conjuntura”. É a quarta turma iniciada na região. As missionárias Luzia Alane Rodrigues e Maria Claret Martins organizaram a mística de abertura da capacitação e incentivaram os participantes a lembrarem de fatos que animam a vida do povo, como a 57ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Assembleia dos Leigos e Leigas do Regional Leste II da CNBB em Uberaba, a Igreja que se coloca a caminho, a formação com a equipe da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a mobilização para o 18 de maio, proteção das crianças e adolescentes, e o apoio social aos catadores do Bairro Maracanã. 

A leitura do Evangelho ressaltou a passagem bíblica “Amai-vos uns aos outros”. Da coordenação da Escola, a assistente social, Sônia Gomes de Oliveira, pontuou que “uma das grandes preocupações da Escola existir é em formar cristãos leigos para ocupar os lugares de participação na sociedade brasileira”. Ela observou atentamente que é sempre necessário “desmistificar que a Igreja não pode participar da política. Não dá para exercer cargos políticos, se não conhecermos o chão em que pisamos”, afirmou. A sua declaração foi a oportunidade para o reitor da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), professor da mesma há 24 anos e pároco da paróquia São Pedro Apóstolo de Montes Claros, padre Antônio Alvimar Souza, delinear o panorama político brasileiro na contemporaneidade.

 “A nossa vida é uma vida política. A política vai se referir ao lugar em que estamos na sociedade”. A partir dela, “vão se estabelecer as relações e o poder que se tem na sociedade”, explicou e citou as ciências práticas da Ética, da Política e da Economia. “É importante que a gente aprenda a administrar a vida. Em política, as forças vão estar se interagindo com todo o mundo. Política é isso: ou você está de um lado ou de outro”, salientou ao comentar o relacionamento contraditório entre a fé e a política.

 “Ficamos pensando que a política seja desconectada de nossa vida. A política interfere diretamente na nossa vida. Religião tem que me levar para o céu. É importante rezar, mas oração não resolve muito. Enquanto você reza, tem gente fazendo leis por você”, argumentou para começar a responder à questão da atuação do indivíduo neste cenário político, quando o processo eleitoral democrático foi legitimado. “Nós somos um país que cresceu desfigurando. Nós somos um país que foi muito cruel com os mais pobres. Nós somos um país que experimentamos 400 anos de escravidão, um país que desfigura o rosto humano”, destacou para, a seguir, sublinhar os fatores importantes para uma análise de conjuntura no Brasil. “A cara da sociedade brasileira mudou muito. Vivemos uma sociedade tipicamente urbana. A sociedade é moderna e muito complexa. Desenvolvemos uma mentalidade e cultura de escravidão. A cidade se tornou um barril de pólvora. Você chega em uma escola e os problemas são infinitos. Vai a um hospital e o mesmo acontece”, exemplificou.

 Para o reitor da Unimontes, a sociedade contemporânea complexa não conseguiu se desvencilhar do modelo de escravidão. O Brasil foi um dos últimos países da América Latina a acabar com o regime escravocrata em 13 de maio de 1888. Ele citou como exemplo um ditado popular. “Quem tem a boca maior engole o outro”, indicou o modo como avança o relacionamento entre as pessoas em uma sociedade egoísta como a capitalista ao apontar para “a implementação de um modelo de subserviência e de negação do outro” e de uma “forma depredatória de lidar com a natureza e com os recursos naturais” como responsáveis pela realidade de barbárie social em que a humanidade caminha e progride. “Implementar uma sociedade de direitos fica caro. Nós achamos que proteger o ser humano socialmente fica caro. A gente não consegue compreender o valor que tem o trabalho do outro. Sempre estamos tirando do outro”, considerou ao mencionar que as religiões foram as instituições que mais enriqueceram nos últimos anos. “O político vê o cidadão como alguém que pode lhe propiciar riqueza”, afirmou. A linguagem do político é o voto.

 Padre Antônio Alvimar Souza passou então a discorrer sobre a fragmentação da sociedade brasileira. Para ele, os brasileiros estão inseridos em “uma sociedade fundada na desigualdade, na pedagogia dos espaços, na implementação de espaços diferenciados: Escola Militar/Escola Sem Partido, Igreja conservadora/Igreja libertadora, clubes pobres/clubes ricos. Nós perdemos, sobretudo, a capacidade de sentar, de discutir, de dialogar. Nós criamos uma sociedade de richas”, concluiu e completou que há uma política de monitoramento em todos os lugares. “Todos estão sendo monitorados para a ideia de que nós precisamos neutralizar na sociedade todas as forças opositoras”, acrescentou e pôs-se em atitude de analisar a desigualdade e a pobreza no país. “A desigualdade e a pobreza são problemas sociais que afetam a maioria dos países na atualidade. No Brasil, temos favelização, desigualdade alimentar, falta de saneamento básico, ensino de baixa qualidade, desemprego, saúde e transporte falhos”, detalhou.

 Para ele, as profissões têm uma visão predatória da realidade social, política e econômica. Com a proliferação de cursos, criou-se uma demanda imaginária. Padre Alvimar definiu que o Brasil “é um país onde você não conseguiu distribuir a renda: os que são ricos são muito ricos e os que são pobres são muito pobres. Existe uma crença no sucateamento dos nossos serviços porque nossa população é muito cruel com o serviço público”, atestou.   

Desigualdade:  “O conceito de desigualdade é um guarda-chuva que compreende diversos tipos de desigualdade desde as desigualdades de oportunidade, resultado, escolaridade, renda, gênero, etc”. O reitor da Unimontes esclareceu a multiplicidade de fatos que influem na formação do ser humano. Citou que em “em 2017, iniciamos o ano com 16 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. A grande maioria dos brasileiros recebe salário-mínimo. 80% vivem com menos de dois mínimos”. “Se a geração não estuda, ela perpetua o ciclo de miserabilidade na sociedade”, declarou. Para ele, “a escola tem que ser o lugar de formação do ser humano e que permita que ele faça reflexões”.

Padre Alvimar adentrou para os obstáculos encontrados na luta contra as desigualdades. “Lutar contra as desigualdades evoca a mancha da inimizade. Os que lutam contra as desigualdades são denominados de marxistas culturais. Marxista cultural é os defensores de negros, das mulheres, dos homoafetivos, dos ecologistas, dos empobrecidos”. Ele descreveu esse momento ao contar que sempre celebrava missas vestido com túnicas emblemáticas dos afrodescendentes. Por esses dias, ele pegou suas túnicas com representações africanas e guardou-as porque não aguentava mais ser estigmatizado como padre da libertação e outras definições na, maioria das vezes, preconceituosas.

A partir dessa constatação, o sacerdote diocesano opinou que “não predomina o senso crítico nas pessoas. É a crença que vem primeiro. Na verdade, nós precisamos ter abertura”, alertou ao apontar que “a universidade é o grande espaço do marxismo cultural porque é o espaço da tolerância”, analisou dialeticamente ao mencionar evento nas Faculdades Santo Agostinho que trouxe a temática “A Teologia da Libertação e o Marxismo: Eles estão entre nós”. Padre Alvimar destacou a sociedade do ódio ou a aporófobia, o crescimento do ódio aos pobres. Trouxe dados de que 25% dos jovens brasileiros não estudam, nem trabalham. “Manter o jovem dentro da universidade é o nosso desafio”, informou.         

O que existe realmente é a “negação dos direitos fundamentais aos pobres” e a “restrição dos espaços de saúde, trabalho e educação”, refletiu. Há o avanço do liberalismo conservador. Uma de suas características é o falso moralismo ou a higiene moral. Um dos seus alvos é a classe média. Os ricos se justificam em seu empreendedorismo ao criar empregos e erguer impérios. A classe média é o lugar da meritocracia e da superioridade moral. O que a distingue são esses fatores. “Não há por parte dos ricos vontade em dividir sua riqueza porque, segundo eles, ela veio do próprio esforço”. Daí o surgimento do Estado Mínimo em contraposição ao Estado Protetor. “A classe média vai culpar os mais pobres pela falta de abundância. A chegada dos pobres em espaços tradicionalmente ocupados pelas classes médias foi o pivô da revolta” que gerou o impeachment da presidente Dilma Rousseff em 17 de abril de 2016.

 Naquela época, pensou-se que o “sucesso econômico foi a baliza da paz, o consumo trouxe a ideia de igualdade, pobres e ricos podiam consumir os mesmos produtos”, mas “frear o consumo é o estopim do caos”. “A população descobriu que ela estava endividada e isso produziu descontentamento. A conjuntura econômica é muito difícil. A briga política inviabiliza encontrar solução econômica para o país. E quem sofre são os mais pobres. É um momento de profunda restrição”, lembrou o padre Alvimar. “Independentemente de quem comeu o pão, houve um erro administrativo. Desvinculou-se a ética da política e da economia. É importante que a gente tenha a informação mais correta. Os políticos têm nos dificultado e a política é o instrumento mais eficaz para a resolução dos problemas da sociedade. É o que me preocupa. Não há pessoas capacitadas” em Brasília/DF, angustiou-se o palestrante da Escola de Fé e Política.

 Porém, ele conseguiu enfatizar que “este é o momento que a gente precisa fazer a discussão com mais propriedade. Temos que ter a ideia de que a política é ganha na ágora”, declarou ao ressaltar que a antiga praça pública grega, centro dos debates, transferiu-se para as redes sociais, como o facebook e o whatsaap. “O rumo é ou nos organizamos ou nós desaparecemos. Existe um projeto político de poder dos evangélicos. Estamos num território fragmentado. Unidade não é igualdade”, fez suas pontuações a respeito da entrada dos religiosos neopentecostais cada dia mais frequente nos espaços políticos e a diminuição dos católicos nesses mesmos.

 “A gente tem que ser presença” –  Padre Antônio Alvimar ainda proferiu algumas recomendações. “Não dá para falar sobre política partidária. É importante conscientizar as pessoas sobre a participação popular na política. Retomar a discussão do que é a política, sobretudo a partir do clero. Política é fazer a prática do bem comum. Política tem que partir primeiro de uma vocação”, insistiu ao orientar que é urgente “preparar as pessoas para que elas possam exercer o mandato”, assessorá-las e fazer visibilidade de suas ações. “O grande problema é que nós, católicos, achamos que não precisamos estar presentes. Vamos ficando na invisibilidade. Isso que está acontecendo nas nossas comunidades: uma Igreja de louvor”, criticou. “Nós não vamos sobreviver na invisibilidade. A gente tem que ser presença. Tudo é política hoje. Imagina o que é esse monte de universidade, rádios, templos nas mãos dos evangélicos? Isso é poder!”, expressou-se.   

“O partido abre sua sede, o seu comitê de quatro em quatro anos. Nós temos um comitê aberto todos os domingos. Se a Igreja tem o poder de organizar missa para diferentes pessoas e entidades, criam-se espaços também para a mobilização política”, sentenciou. “É importante que a gente tome postura. Não precisa proteger católicos, mas prezar pelo bem comum”, avaliou e pôs-se a comentar sobre o comportamento dos estudantes universitários. “O estudante católico é muito reacionário. O comportamento dele é o anti-político. Isso me preocupa. É um jovem que pensa que o mundo é o inimigo. Você está formando um médico, um advogado, um determinado profissional que não tem sensibilidade social e política. O que vai ficar é o grupo que tem maior força e organização. Que nós passemos a buscar mecanismos de sobrevivência”, sugeriu o sacerdote.

Texto e foto: João Renato Diniz/ Jornalista

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***Viviane Carvalho – Assessoria de Imprensa Arquidiocese de Montes Claros
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