Artigos de Dom João Justino

A força da palavra

​A experiência humana é fundamentalmente marcada pela palavra. As ciências, sob ângulos diversos, estudam o ser humano como ser falante. Os recursos da linguagem humana são muitos, mas o principal deles é a palavra. É encantador acompanhar uma criança que pouco a pouco balbucia as primeiras palavras e, em poucos meses, consegue formular frases expressando seus primeiros desejos e pensamentos, seus sonhos e seus medos. A atenção dos outros, sobretudo dos pais, para entabular os primeiros diálogos com a criança, evidencia a apreensão de uma linguagem articulada pelas palavras. E, diante das birras e teimosias infantis, a palavra tem de ser o recurso primeiro que apresenta motivos e razões para agir deste ou daquele modo.

O uso da palavra e o recurso do diálogo se aprende sobretudo no âmbito da família e da escola. Este aprendizado é elementar para o êxito da vida em sociedade. Saber conversar, saber dialogar, saber escutar são atitudes que estabelecem pontes entre as pessoas. Os que aprendem e fazem bom uso da palavra tendem a utilizá-la com inteligência e criatividade para alcançar seus objetivos. Quando se despreza a palavra, o resultado não é bom. Antes, espera-se o pior. Tomemos como exemplo um âmbito de grande importância para a vida de todos, a política. Ela supõe a capacidade de dialogar para construir consensos e alcançar o seu objetivo, ou seja, o bem comum. É até mesmo costumeiro identificar a vocação política a partir da capacidade de uma pessoa discursar com desenvoltura e saber persuadir com argumentação coerente.

 Isto nos leva a considerar que precisamos tornar a cultivar a importância da palavra, do discurso, do diálogo. A rapidez e a simplificação das mensagens fazem com que muitos não se atentem para a necessidade de encontrar razões plausíveis para seus pontos de vista e se dispor a escutar, estabelecendo diálogos que são por natureza o modo humano de se encontrar saídas para os desafios, os impasses e as dificuldades. Um certo empobrecimento da política advém, assim me parece, da falta do diálogo e do enrijecimento de posições que logo se tornam autoritárias e prejudiciais para o sentido de cidadania e de pertença social. Infelizmente, quando se dispensa a força da palavra, apela-se para outros modos de força que são desastrosos.

Só a palavra pode dirimir diferenças, iluminar posições, desfazer preconceitos, construir soluções. Em todos os âmbitos relacionais a palavra tem sua propriedade para fazer operar o encontro, a descoberta, o acordo, a racionalidade. Isso, sem romantismos, pois é também pela palavra que se comunica a indignação, a profecia, a denúncia, o inconformismo… Ninguém pense que a palavra é fraca. Ela tem uma força própria e nem sempre apercebemo-nos dela. Mas quem despreza a palavra, trilha o caminho da insensatez e resvala-se para o abismo da incompreensão. Talvez seja este um critério interessante para considerar as ações dos que foram recentemente eleitos. Como estão gerenciando o diálogo com a sociedade, e não apenas com seus eleitores? Isto porque, uma vez eleitos, estão empossados para servir a todos. Gestores que não escutam, não dialogam, não apresentam razões claras e convincentes estão demonstrando sua inaptidão para governar. E o tempo é implacável em suas cobranças.

Por: Dom João Justino de Medeiros Silva / Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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