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A síndrome da autossuficiência

            O ser humano, como ser criado, entra na história de modo tão frágil que requer inúmeros cuidados. De fato, seus primeiros anos de vida são revestidos de grande demanda de atenção. Geralmente, no seio de uma família, precisará atravessar a infância e a adolescência para alcançar, quando jovem adulto, maior independência. A existência humana é permeada de incertezas e imprevistos. A vida é cheia de limites e de riscos, de erros e acertos. A velhice comporta novo processo de limitação. Tudo isso faz lembrar o famoso enigma da esfinge: “Qual animal caminha sobre quatro pernas de manhã, duas pernas durante o dia, e três pernas à noite?” A resposta ao enigma é o homem. Quando criança engatinha, quando adulto caminha com suas pernas e quando idoso tem o auxílio da bengala. Nada mais figurativo da contingência humana.

            No longo percurso de sua maturação, cada pessoa tem a chance de descobrir que pode muito, mas não pode tudo. A onipotência não é um atributo da humanidade. Muitas das pirraças infantis são uma reação psicoemocional ao limite que se apresenta inexorável. Talvez, pais e mães não consigam medir a importância de sustentar um “não” perante os desejos sem fim de seus filhos. Nem todos concordam que a experiência de uma frustração produz efeitos muito interessantes para a maturidade, especialmente como preparação para a vida em sociedade.

            O desejo de onipotência, porém, parece estar inscrito no humano. Bem traduziu esse desejo o escritor sagrado do livro do Gênesis ao colocar na boca da serpente a palavra tentadora dirigida à Eva: “Deus sabe que, no dia em que comerdes da árvore, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecedores do bem e do mal” (3,5). Adão e Eva cederam à tentação da onipotência e desobedeceram a lei que lhes garantia o paraíso. Querer ser como Deus, que tudo sabe, que tudo pode, que tudo conhece é, em linguagem religiosa, uma tentação que perpassa a história humana.

Essa tentação aflora aqui e acolá, mesmo em adultos, como uma espécie de “síndrome da autossuficiência”. Não é raro encontrar pessoas com características que evidenciam uma postura de rejeição a qualquer consideração que aponte uma falta. Tais pessoas falam como se tivessem todas as certezas, vivem como se tudo devesse estar a serviço de seus ideais, resistem a escutar interpelações e fazem-se de surdas quando questionadas. O resultado é, inevitavelmente, o autoritarismo, cuja base de sustentação é falsa, consistente na convicção de estar sempre certo acerca de tudo.

A Igreja valoriza, cada vez mais, o caminho sinodal, isto é, a dinâmica de escuta, diálogo e decisões conjuntas. É comum o emperramento dos processos de sinodalidade quando alguns se apresentam como autossuficientes. Estes desprezam o caminho mais longo e mais frutífero de construção de soluções com a participação de maior número de pessoas. Não se pode negar que o clericalismo tem uma face de autossuficiência. No mundo da política, especialmente da gestão pública, é bastante presente essa síndrome. Mesmo com mecanismos de controle social, alguns gestores tapam seus ouvidos, ridicularizam seus adversários, menosprezam conquistas históricas e (des)governam com a sensação ridícula de que têm posse de toda verdade. Pura ilusão.

+ João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

 

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