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Acampamento Alvimar Ribeiro

12No dia 22 de março, 10h da manhã na Região de Grão Mogol, acampamento receberá o nome de Alvimar Ribeiro do Santos, um dos incentivadores da luta de conquista da terra “Geraseiro Vale das Cancelas”.  A Missa será presidida pelo arcebispo Metropolitano Dom José Alberto Moura.

O grande abraço do Alvimar Ribeiro dos Santos 

O pedreiro que, ao lado de 500 companheiros, ajudou a  construir o Edifício Montes Claros, um dos primeiros da cidade, hoje batiza, com o seu nome e história singular, acampamento geraiseiro no Vale das Cancelas, em Grão Mogol, Vale do Jequitinhonha-MG, lugar onde o Projeto de Mineroduto Alto Rio Pardo de Minas se apossa e estuda a possibilidade de exploração ambiental da região.

São mais de 600 pedidos de processo para a área ao Estado Democrático de Direito. A ideia original é a de que o minério encontrado ali seja transportado pela escassa água do Norte, Nordeste e Noroeste de Minas Gerais, através de tubulações enterradas debaixo da terra, até o porto do Ilhéus-BA que exportará essa matéria-prima para o mundo.

Atento à ação do projeto de mineroduto, o fundador desde 1982 da Pastoral da Terra no Norte de Minas Gerais, Alvimar Ribeiro dos Santos, viajava pela região para mobilizar, conscientizar e esclarecer a população atingida. Foram muitas viagens missionárias a comunidades rurais isoladas e atingidas por barragens e pela mineração em São João do Paraíso, Jequitaí, Fruta de Leite, Novorizonte, Salinas, Riacho dos Machados, dentre outros municípios.

Nas viagens pela rodovia, o motorista e agente de pastoral Alvimar dos Santos cantava e animava-se em boa voz grave músicas caipiras de raiz. Quem ia ao seu lado nem precisava de rádio. Alvimar da Comissão Pastoral da Terra (CPT) faleceu aos 61 anos, em 19 de agosto de 2016, sexta-feira, depois de ficar quatro dias no hospital com morte cerebral detectada pelos médicos. Para os seus amigos, parentes e familiares, aquela semana foi de aflição.

Nasceu Alvimar Ribeiro dos Santos em 13 de julho de 1954 na roça: beira do Rio da Barra em Santa Rosa de Lima, distrito de Montes Claros-MG. Comemorou seu derradeiro aniversário com a família em 2016. Era filho de um camponês e de uma camponesa que trabalharam sob a exploração de grandes fazendeiros da região.

Na infância de Alvimar em Engenheiro Navarro e em Engenheiro Dolabela, na época dos Matarazzo, seus pais estavam subjugados ao trabalho sem benefícios. Essa origem sofrida de Alvimar dos Santos o fez corajoso e sensível às complexidades dos problemas sociais que explodiam no Brasil na década de 1980, última década em que o mundo do século XX esteve dividido entre países socialistas liderados pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e países capitalistas com a liderança inconteste dos Estados Unidos da América. A Guerra Fria caminhava para o seu fim.

O papa do período, João Paulo II, fazia de tudo para desacreditar a Teologia da Libertação. Porém, o fiel católico cebiano Alvimar Ribeiro dos Santos tinha bastante fé. Por isso sua crença na salvação da humanidade através da denúncia e luta pela igualdade social era tão forte e incalculável.

“Tenho o prazer porque em 1984, eu consegui liderar uma greve, aquela greve de 1984, ali nas Malvinas, onde o pessoal trabalhava e trabalhava de uma forma escravizada. E depois de muitos anos, eu retorno. Então foi uma graça de Deus de contribuir com aquela greve com mais de quatro mil pessoas”, relatou Dos Santos em gravação disponível na conta de vídeos do www.youtube.com criada pelo frei carmelita Gilvander Luís Moreira, de Belo Horizonte-MG.

A entrevista de quatro minutos e 52 segundos está sob o título “Alvimar Ribeiro, da CPT: camponês missionário na luta pela terra…” e foi gravada em 20 de julho de 2016, sábado, por Pedro Bittencourt.

De camisa verde e branca gola-pólo, Alvimar estava sentado em uma mureta, com o fundo enfeitado por plantas e onde o lado direito foi ornamentado com uma imagem de uma carranca típica das embarcações do Rio São Franscisco para espantar o mau olhado contra a luta dos movimentos sociais.

Alvimar falou tranquilo sobre recortes de sua vida, pausadamente, já um pouco abatido pela doença. Mas a firmeza da sua voz podia ser notada ainda. Era um líder espiritual e profético do povo de Deus criado pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).

“Integrei a CPT em 1980, 1982, assim que ela veio para Minas Gerais. Nessa trajetória toda, eu venho trabalhando na Pastoral e, com certeza, se Deus me der mais vida e saúde, continuarei” esta missa grande, esta missão, “mesmo aposentado”, desejava. “Continuarei contribuindo com os camponeses e camponesas desta região em defesa do cerrado, em defesa das nascentes, em defesa dos nossos rios, em defesa do Rio São Francisco, em defesa dos posseiros e posseiras desta região, em defesa dos sem-terra, em defesa de todos aqueles que realmente querem um pedaço de chão para plantar e dele tirar o seu sustento. Estarei a serviço da missão de Jesus Cristo, pregando o Evangelho no sentido de que essa sociedade dos pobres possa ser reconhecida pela sociedade de amanhã e não como um migrante, e não como um mendigo, mas aquele que realmente planta, abre o chão e, dentro da terra mãe, planta a sua semente para dela tirar o seu sustento e alimentar os filhos e netos desta região”, pregava Alvimar Ribeiro dos Santos.

Até 2012, quando a Pastoral da Comunicação da Arquidiocese de Montes Claros mantinha contato mais profundo com a Pastoral da Terra, Alvimar cursava a Escola Diaconal Monsenhor Tadeu para se fazer diácono permanente e tornar-se mais clerical e hierárquico.

Alvimar sempre preferiu a prática aliada com a teoria, a vida ligada à fé. Fé e vida de CEBs. Alvimar era casado com Lúcia e morava na Vila Atlântida, perto do barulho e da poeira das pedreiras. O casal teve cinco filhos, sendo uma mulher e quatro homens. Adotou mais um garoto: o Marcos Danilo. “Morreu com 15 dias. Minha esposa e eu tratamos e cuidamos dele, mas Deus o levou. E teve também um aborto que eu considero que era filho também que estava todo perfeito, e mais três homens e uma mulher. E tenho seis netinhos”, contava e vibrava o agente de pastoral.

“Então assim eu fico feliz. Agradeço a Deus, a Nossa Senhora Aparecida e a todos os santos, né! Que nós possamos ter uma caminhada organizada neste país. Quem sabe amanhã, possamos ter um celeiro mais farto”, torcia Alvimar e congratulou-se com Pedro Bittencourt, autor da gravação.

“E a você, Pedro, quero agradecer ao grande empenho de seu trabalho, que seja feliz, e a todas as outras organizações que a gente falou aqui neste momento, neste sábado. Muito obrigado, Pedro! E eu tô à disposição. Você encontrou com o meu grande amigo que foi o seu Antônio Inácio. Assim que Deus permitir, com certeza, eu estarei encontrando cada um para dar um grande abraço nele porque eu tenho uma consideração muito grande por ele”, revelou o coordenador estadual da Pastoral da Terra.

Texto enviado por Luzia Alane – CPT Arquidiocese de Montes Claros.

***Viviane Carvalho – Assessoria de Imprensa Arquidiocese de Montes Claros  (38 Vivo) 9905-1346 (38 claro) 8423-8384 ou pelo e-mail: [email protected]

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  • Grande e saudoso Alvimar Ribeiro dos Santos, para quem “santo de casa vai ter que fazer milagre”, naquela viagem para Fruta de Leite e Novorizonte, em 05 de abril de 2011, para conscientizar a população sobre o Projeto de Mineroduto Alto Rio Pardo de Minas. Fez o caminho inverso: abandonou a área urbana para defender o povo da área rural. Mas soube defender todos os povos, cada dia mais segmentados e dilacerados em seu tecido social. A tendência na sociedade capitalista é o campo se tornar para poucos afortunados ou ficar em mãos de empreendedores que não conseguem deixar livre nem área de preservação ambiental. “Barragens são grandes fabricadoras de sem-terra”, denunciava Alvimar. Expulsos de suas terras, não restava aos atingidos que sobreviviam viver no caos urbano e engrossar a fila da reserva de mercado. Alvimar representa a luta pela dignidade humana no Norte de Minas Gerais. Aprendeu a ter consciência social da pior forma: na infância quando seus pais trabalhavam a pão-de-ló. Em 19 de agosto de 2016, levou para o andar de cima recortes memoráveis da sua vida e de tanta vida sofrida da região. Com certeza, mostrará a São Pedro e São Paulo os mártires da caminhada deste sertão de sertanejos sem focinheira. Alvimar se foi próximo a se tornar diácono permanente da Escola Diaconal Monsenhor Raimundo Tadeu de Carvalho: um prêmio para quem profetizou as injustiças sociais nesta região geraiseira ainda tão carente. À luta, pois, e à vitória! Venceremos!

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Arcebispo Metropolitano de Montes Claros (MG)

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