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A globalização da indiferença

Coronavírus - Atitude (ANSA; VaticanNews)

O uso do termo “globalização” é recorrente na linguagem para indicar que, no mundo, cada vez menos se consegue viver de modo isolado ou imune aos resultados das ações alheias. Há quem remeta o início da globalização à era das grandes navegações dos séculos XV e XVI. De lá para cá, o processo de aproximação e de (des)encontros entre os povos foi se impondo. Com os avanços, nas últimas décadas, da tecnologia da comunicação, o acesso ao mundo está, por exemplo, nos smartphones, pelos quais pode-se fazer uma chamada de vídeo e conversar ao vivo com uma pessoa que se encontra noutra parte do mundo. Uma mesma pessoa pode ter milhões de seguidores numa rede social, milhares de amigos noutra e centenas de contatos em seu WhatsApp. Nesses tempos de pandemia, o distanciamento físico não impediu boa parte dos contatos sociais por meio dos recursos da internet. Videoconferências e lives passaram a fazer parte do cotidiano de inúmeras pessoas. Os canais de televisão, aberta ou paga, se viram multiplicados exponencialmente com as tvs smart, ligadas à rede com acesso ilimitado ao Youtube e a outros aplicativos. Cada vez mais os usuários da internet se sentem conectados a um número sempre maior de pessoas.

No entanto, como disse o Papa Bento XVI, “a sociedade sempre mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos torna irmãos” (Caritas in veritate, 19). Esse alerta tem a força de nos interpelar: existem, atualmente, inúmeras possibilidades de contatos e de encontros entre as pessoas. Todavia, o que ocorre, já que tal proximidade não resulta em maior fraternidade? Há que se pensar. Esse mundo virtual tem o avesso perverso das notícias falsas, as fake news. Por outro lado, cada vez mais os olhos se habituam a procurar incessantemente novas imagens, sem se deter na atitude saudável da contemplação. A insaciabilidade humana é despertada qual ferida que se alarga e adoece mais o corpo. O Instagram parece acionar a iconofagia com uma voracidade que inibe qualquer desejo místico de “fechar os olhos”.

As maravilhas da inventividade humana têm ambivalências. Hoje pode-se ver, assistir, ler, saber mais e seguir artistas, pensadores, figuras públicas… Sabe-se, no entanto, que não necessariamente cresce o benquerer entre as pessoas. Há repúdios e tentativa de controle sobre conteúdos de violência e de desrespeito à dignidade humana e aos bens da criação. Mas a globalização da indiferença parece campear sempre mais. Alerta-nos o Papa Francisco: “A primeira forma de indiferença na sociedade humana é a indiferença para com Deus, da qual deriva também a indiferença para com o próximo e a criação. Trata-se de um dos graves efeitos dum falso humanismo e do materialismo prático, combinados com um pensamento relativista e niilista. O homem pensa que é o autor de si mesmo, da sua vida e da sociedade; sente-se autossuficiente e visa não só ocupar o lugar de Deus, mas prescindir completamente d’Ele; consequentemente, pensa que não deve nada a ninguém, exceto a si mesmo, e pretende ter apenas direitos” (Mensagem para o XLIX Dia Mundial da Paz, 01.01.2016).

Para se vencer a indiferença é urgente fomentar uma cultura de solidariedade e misericórdia. Isso começa em sua família, desde o modo como você educa o uso crítico dos meios de comunicação, como se atende quem bate à porta de sua casa, como seus olhos e seu coração se sensibilizam com quem demanda a sua atenção.

+ João Justino de Medeiros Silva

Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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