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A Igreja não pode ignorar a política

Muitos católicos e não católicos afirmam que a Igreja não deve se envolver com política. Com tristeza encontramos essas pessoas, sobretudo nas redes sociais, que além de defenderem seu ponto de vista, optam pela agressão verbal e raivosa quando a Igreja ou seus pastores se manifestam sobre a conjuntura social, sobre fatos políticos e até mesmo sobre governos. Considerar que a missão da Igreja é puramente de ordem espiritual reflete uma concepção equivocada da teologia e da antropologia cristãs, que tende a seccionar as dimensões do ser humano e as vê como separadas e independentes. Mas não é assim. A visão cristã integral da pessoa indica que as dimensões do humano estão interligadas e é impossível separá-las, sob o peso de se criar abordagens verdadeiramente esquizofrênicas.

Como cristão eu aprendi isso na minha adolescência. O Brasil vivia sob o regime militar. Em casa escutava as histórias da chamada revolução de 31 de março de 1964. Se falava da “revolução” com voz baixa o que já exalava o odor de alguma falta de liberdade. Na comunidade eclesial, o padre pregava com inteligência e sutilidade. E quando cantávamos a célebre canção “Pra não dizer que não falei das flores” eu ia aos poucos compreendendo que o evangelho proclamado e meditado não era uma palavra para nos fazer saltar da terra ao céu, mas para atravessar a história como “sal da terra e luz do mundo” rumo ao céu. Nada estava separado. Antes, tudo está interligado.

No Seminário, uma das disciplinas era eclesiologia, ou seja, o tratado teológico sobre a Igreja. O professor foi mais tarde chamado ao episcopado, tendo concluído seu ministério como Arcebispo Emérito de Sorocaba-SP. Pe. Eduardo, como o chamávamos, com respeito e proximidade, usava como referência o teólogo alemão Michael Schmaus. Ele nos apresentou o Documento 40, escrito pelos bispos do Brasil, em abril de 1988. A meu ver é um dos melhores documentos do episcopado brasileiro. Intitula-se “Igreja: comunhão e missão na evangelização dos povos, no mundo do trabalho, da política e da cultura”. Ali se lê: “A Igreja não pode ignorar a política, não apenas enquanto instrumento necessário de organização da vida social, mas sobretudo enquanto expressão de opções e valores que definem os destinos do povo e a concepção do homem… O fato da presença da Igreja no mundo da política é inevitável, mas a natureza e a qualidade dessa presença dependem de sua consciência evangélica e profética, do momento histórico e do próprio conceito de política. É a vocação evangélica que norteia seu modo de proceder na política. Ela é permanente e definitiva, mas suas implicações e consequências no plano político devem ser pensadas num determinado momento histórico. Nesse sentido, cabe sempre, de novo, refletir sobre a fé e a política, já que os eventos históricos nascem da novidade da liberdade humana no entrechoque com as situações mutáveis” (Doc. 40 da CNBB).

Passaram-se mais de 30 anos. Hoje estou à frente de uma Arquidiocese norte-mineira. Como bispo não posso prescindir de cuidar da formação política do nosso povo, sob pena de faltar com minha missão pastoral, pois devo ensinar que “aquela caridade cristã que compendia em si todo o Evangelho, e que, [está] sempre pronta a sacrificar-se pelo próximo, é o antídoto mais seguro contra o orgulho e o egoísmo do século. Este amor pode ser chamado ‘caridade social’ ou ‘caridade política’ e deve ser estendido a todo gênero humano” (Compêndio de Doutrina Social da Igreja, 581).

+ João Justino de Medeiros Silva

Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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