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Artigo: O sacramento da “recordação”

O ser humano, feito à imagem e semelhança do Criador, é um ser aberto às relações, consigo, com Deus e com o outro. É capaz de sair de si em direção às necessidades que não o afetariam diretamente. Se comove com a dor externa a si, com os sofrimentos que se lhe apresentam. Tornar-se humano é, necessariamente, saber relacionar-se afetuosamente, ex cordis (de coração).

A palavra coração, do latim cordis, indica, nas Sagradas Escrituras, a sede da vida psíquica, lugar mais secreto do ser humano, a consciência que somente o Senhor pode perscrutar. Enfim, o lugar em que se encontra o solo sagrado de cada homem e mulher. Os relacionamentos humanos devem brotar do coração, sede da vontade, de onde brota o desejo plantado pelo Criador de sair de si, de transcender-se.

Corriqueiro é caminhar pela vida e dar-se conta do quão facilmente se distancia daquilo que, realmente, significa ser humano. Volve-se o coração para o pecado, que o leva a um aprisionamento, que retira do humano a essência de sua humanidade, usurpa-o a liberdade, faz dele escravo, maculando sua dignidade. Seguimos, assim, caminhos que são contrários à essência dada a nós por Deus: maculamos o chão sagrado do coração, rompendo com a nossa capacidade de relação.

Todo este “esquecimento” se encontra demonstrado na sociedade em que vivemos, cada vez mais individualista, que se afasta cada vez mais da implantação do reino de Deus, tratando até mesmo o ser humano como um bem de consumo descartável (cultura do descartável). Vê-se cada vez mais a escravização do homem por seus avanços tecnológicos, e, com isso, a perda de valores e da sensibilidade com os clamores do mundo que nos rodeia. É necessário, trazer, novamente ao coração, a verdade da nossa essência: recordar-nos de nossa humanidade; criados à imagem e semelhança de Deus.

Trazer novamente ao coração é o que, em sua origem, significa a palavra recordar (re-cordare). Daí o brado dos profetas de Israel ser sempre “Recorda-te”! Se o pecado é o esquecimento do amor de Deus, e da nossa própria humanidade, a conversão se dá por meio de um retorno ao Senhor; trazer novamente ao coração a verdade de um Deus cujo coração se contorce e entranhas se comovem de amor por nós (cf. Os 11, 8b); retornar àquilo que somos de fato, humanos, seres criados aos moldes do Verbo.

O sacramento da reconciliação (reconciliare), ao nos mergulhar no amor divino, nos traz a recordação de nossa essência humana. É, primeiramente, expressão sensível do acolhimento feito por aquele Pai ao filho que gastou todos os seus bens, nas palavras do escritor bíblico, perdeu sua própria essência (οὐσία) (cf. Lc 15, 11-32). É o abraço que nos recorda, que, ainda que não no vemos como merecedores, temos a dignidade de filhos que nos foi dada pelo Filho. Esta verdade esquecida, trazida novamente ao coração, abre-nos ao horizonte onde podemos nos potencializar verdadeiramente como humanos (cf. 1Jo 3, 1-2).

George Luís Cardoso Silva
Seminarista da Arquidiocese de Montes Claros, acadêmico do curso de Teologia.

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