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E quem é o meu próximo?

A pergunta que intitula este artigo é conhecida de todos os cristãos. Está no Evangelho de Lucas (10,29), no relato da conhecida parábola do Bom Samaritano. Confesso que muito cedo fui tocado por essa indagação. Eu era, ainda, um adolescente quando num dos encontros de nosso grupo de catequese de perseverança escutamos, meditamos e encenamos a parábola. A pergunta permanecia em mim. Incomodava. Certamente não estava isolada do meu processo de discernimento vocacional. Cheguei a escrever a letra de uma música, depois musicada por um amigo e premiada num festival de música cristã. O refrão dizia: “Quem é o meu próximo, o meu próximo é quem? Se tu não sabes por que dizes amém?”

Após ter passado nove anos no seminário e de ter quase vinte e nove anos de sacerdócio, já proclamei e preguei essa página do evangelho muitas vezes. Cada vez que o faço, sinto-me interpelado pela força das palavras de Jesus. Em 2020, esse texto foi o principal da Campanha da Fraternidade, que tratava do tema: “Fraternidade e vida: dom e compromisso”. Naquela quaresma fomos surpreendidos com a pandemia. Ressoou, então, mais forte, o versículo tomado como lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34). A pandemia desafiou o mundo à compaixão e à solidariedade.

Quando escreveu a Encíclica Fratelli tutti, o Papa Francisco deixou-se, mais uma vez, interpelar por essa parábola, dedicando-lhe o capítulo segundo, com o título: “Um estranho no caminho”. A parábola está articulada ao redor de um diálogo. Há perguntas e respostas. No entanto, a interpelação de fundo e mais contundente é: “com quem te identificas?” (FT 64). A sociedade da tecnologia, do consumo e do sucesso tende a se desinteressar das pessoas frágeis, especialmente das que estão caídas à beira do caminho. Como na parábola, a tentação de se distanciar, inclusive para evitar o contato humano do olhar e passar ao longe, faz-se presente. “A história do bom samaritano repete-se: torna-se cada vez mais evidente que a incúria social e política faz de muitos lugares do mundo estradas desoladas, onde as disputas internas e internacionais e o saque de oportunidades deixam tantos marginalizados, atirados para a margem da estrada” (FT 71).

Afirmo que há muitos bons samaritanos em nossas cidades. Gente de coração altruísta, que não se nega diante das necessidades do outro. Há um número grande de instituições que cuidam das mais diversas feridas humanas. Em nossas comunidades eclesiais e noutras expressões religiosas, também entre pessoas não crentes, encontram-se aqueles que não medem esforços para aliviar o sofrimento alheio. As iniciativas governamentais e as políticas públicas, necessárias e nunca dispensáveis, diversas vezes escassas e ineficientes, jamais impedirão o exercício da fraternidade e da solidariedade cristãs.

Que a ordem de Jesus ao doutor da Lei: “Vai e faze tu a mesma coisa” (Lc 10, 37) grite em nossos corações, quando chegamos ao absurdo número de 500 mil mortos decorrentes da COVID-19. O descompasso de autoridades ao lidar com a pandemia deixa uma pergunta: com quem nos identificamos? Com o sacerdote e o levita que evitaram a proximidade na ilusória tentativa de enganarem a si mesmos, dispensando-se do imperativo cristão e ético de cuidar daquele ferido? Ou com o samaritano que “viu, sentiu compaixão e cuidou dele”?

+ João Justino de Medeiros Silva

Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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