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Uma Campanha na Quaresma?

Aproxima-se mais uma Quaresma. Há uma dimensão cíclica da liturgia cristã. Celebra-se o mistério pascal de Jesus Cristo ao longo de um ano, não coincidente com o ano civil. Nos países de tradição cristã o ano civil se organiza tendo em consideração as principais festas do cristianismo, as móveis, como a Páscoa, e as fixas, como o Natal. E para preparar a Páscoa anual tem-se a Quaresma, período que vai da Quarta-feira de Cinzas até a Quinta-feira Santa. Com a Missa da Ceia do Senhor inicia-se o Tríduo Pascal.

A Quaresma “é período de conversão e autorreflexão. São 40 dias dedicados à oração, ao jejum, à partilha do pão e à conversão pela revisão de nossas práticas e posturas diante da vida, do Planeta e das pessoas. É a prática da contrição, isto é, o momento de arrependimento dos pecados cometidos e o reconhecimento de que esses pecados são uma ofensa ao Deus amor” (Texto base da Campanha da Fraternidade 2021, nº 13). Nesse período, os fiéis intensificam a escuta da Palavra de Deus e vivem exercícios espirituais com o intuito de renovar a fé batismal, o que ocorre na solene Vigília Pascal. O Concílio Vaticano II já insistira na importância de acentuar o caráter batismal e penitencial da Quaresma. Converter-se para o amor a Deus e aos irmãos. Crescer na fraternidade, grande sonho de Jesus Cristo para a humanidade, é o resultado esperado de cada Quaresma.

Precisamente em 1964, surgia na Igreja do Brasil a feliz iniciativa de associar à Quaresma uma Campanha da Fraternidade, seguindo a experiência nascida no ano de 1962, em Natal (RN). A Campanha, como conjunto de esforços e ações coordenadas durante um determinado tempo para alcançar um fim, se tornaria um dispositivo pastoral para incrementar o apelo quaresmal de conversão pessoal e de transformação social. São objetivos permanentes da Campanha da Fraternidade: “despertar o espírito comunitário e cristão no povo de Deus, comprometendo, em particular, os cristãos na busca do bem comum; educar para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor, exigência central do Evangelho; renovar a consciência da responsabilidade de todos pela ação da Igreja na evangelização, na promoção humana, em vista de uma sociedade justa e solidária” (Manual da CF 2019, p. 103).

Nasci e cresci numa Igreja que realizava a Campanha da Fraternidade. Tenho ótimas recordações do tempo de minha catequese e dos anos da educação básica quando, mesmo na escola pública, a Campanha era apresentada de modo tão enfático. Tenho, por exemplo, lembranças vivas da Campanha de 1979, com o tema “Por um mundo mais humano” e com o lema “Preserve o que é de todos”. Eu cursava a então sexta série do primeiro grau e ouvia pela primeira vez as reflexões sobre o cuidado ecológico. Recordo-me bem das belas canções daquele ano, ensinadas com esmero pela professora de Ensino Religioso, Dona Bárbara: “Perdão, Senhor, é idolatria amar a morte. Nosso egoísmo mancha o céu, a terra o mar. O azul, o verde, as ondas vão ter outra sorte se o nosso coração se converter e amar”. Como seminarista, padre e bispo animei muitas Campanhas nas comunidades. Não vejo nenhuma perda do espírito quaresmal. Antes, cada Campanha da Fraternidade interpela nossa coerência cristã e aponta caminhos de conversão para uma mais densa fidelidade a Jesus Cristo, ao Evangelho, ao seu Reino.

+ João Justino de Medeiros Silva

Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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