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Assim na Terra como na Trindade

Santíssima Trindade/ franciscanos.org

Nos primeiros anos de ensino de teologia, no seminário e, depois, na faculdade, vivi uma inquietação. Ensinava durante um semestre letivo disciplinas como Cristologia, Trindade e Eclesiologia. São cursos com carga horária semanal de 4 horas. Aulas expositivas, pesquisas, leituras, provas, elaboração de textos, faziam parte da rotina de cada conteúdo. Eram quase sempre turmas pequenas. Isso facilitava a relação professor-aluno, abrindo espaço para muitos diálogos. Contudo, a inquietação estava lá. Ela nascia como pergunta: qual a incidência do estudo do dogma de fé na vida pessoal de cada um, seja professor, seja aluno?

Sim, eu compreendo que a teologia é ato segundo. Antes de tudo vem a fé. Também concordo que há uma dimensão espiritual da teologia que nos remete ao fazer teológico de joelhos. No entanto, a pergunta é: depois de estudar o tratado teológico da Trindade, o que muda em nossa vida? Quais as implicações que a reflexão teológica, sobre o mistério de Cristo, traz para a vida de um estudante de teologia? Essa pergunta se desdobra para todos os cristãos. Como minha vida, minha história é marcada pela fé que professo?

Então, me deparei com uma belíssima obra intitulada “Assim na Terra como na Trindade”, de autoria do teólogo argentino Enrique Cambón, publicada no Brasil pela Editora Cidade Nova, no ano 2000. O subtítulo é autoexplicativo: “O que significam as relações trinitárias na vida em sociedade?” Essa pergunta me remeteu à inquietação já referida. Qual a implicação da fé trinitária para as relações do cotidiano? E qual a incidência da teologia da Trindade na vida da Igreja?

O autor parte da afirmação de que “a novidade cristã não está em crer que Deus existe, e sim que ‘Deus é amor’ (1Jo 4,8.16)”. Recorda que a lógica do amor exige que, na vida intradivina, haja pluralidade, alteridade, comunicação, reciprocidade. Logo, se propõe a investigar sobre qual é e o que significa concretamente a ligação entre Trindade e existência humana. E produz uma profunda teologia que merece ser conhecida.

Quero partilhar com você, caro leitor, a citação que Enrique Cambon tomou dos Bispos de Navarra e do País Basco. Ilustra bem o alcance de um estilo trinitário de vida apresentado pelo autor: “Confessar a Trindade não quer dizer, apenas, reconhecê-la como princípio, mas, também, aceitá-la como modelo último da nossa vida. Quando afirmamos e respeitamos as diversidades e o pluralismo entre os seres humanos, na prática confessamos a distinção trinitária de pessoas. Quando eliminamos as distâncias e trabalhamos para realizar a efetiva igualdade entre homem e mulher, entre afortunados e despossuídos, entre próximos e distantes, afirmamos, na prática, a igualdade das pessoas da Trindade. Quando nos esforçamos por ter ‘um só coração e uma só alma’ e aprendemos a colocar tudo em comum, para que ninguém tenha de passar pela indigência, estamos confessando o único Deus e acolhendo em nós a sua vida trinitária”.

Ao celebrar a Solenidade da Santíssima Trindade, no domingo seguinte ao de Pentecostes, não deixe de conferir se sua mentalidade, seus valores, seus princípios éticos, suas causas… estão em sintonia com o mistério trinitário. É preciso dizer, inclusive, que não é coerente professar a fé em Deus Uno e Trino e levantar bandeiras antidemocráticas.

+ João Justino de Medeiros Silva

Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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