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Diversidade e diferença como bênçãos

Uma criança em seu processo de crescimento, já nos seus primeiros meses de vida, se depara com a diferença. Desde que foi cortado o cordão umbilical que o unia de modo único à sua mãe, o novo ser humano vai se descobrindo em meio às primeiras relações com o seu “eu”, diferenciando-se dos outros. Esse processo natural e cultural tem seu lado maravilhoso e tem seus limites. O curso do tempo vai mostrar o êxito ou não da socialização. Lidar com a diversidade e a diferença, seja menor ou maior, qualificará a pessoa para os valores da alteridade e da solidariedade. Sabe-se que as chamadas relações parentais têm importância fundante na constituição da identidade do sujeito. Todos somos um pouco resultado da primeira infância.

A cultura contemporânea tem elementos complicadores para os processos de individuação e de socialização. Um número sempre maior de atores participa, seja presencial ou virtualmente, da educação dos pequenos. Hoje, ao se pensar a educação, na sua acepção mais ampla, que envolve a família, a escola e a sociedade, tem-se o desafio de encontrar direções para uma cultura do encontro e da valorização da pessoa, na contramão da globalização da indiferença. Trata-se de uma tarefa exigente e laboriosa.

É muito elucidativo o instrumento de trabalho do Pacto Educativo Global, em sintonia com os ensinamentos do Papa Francisco, quando afirma: “Na origem das fragmentações e oposições de hoje, que muitas vezes levam às mais variadas formas de conflito, está escondido o medo da diversidade. Reconstruir os tecidos da unidade e do encontro, portanto, exige que o pensamento dê um salto adiante e mude radicalmente a sua lógica habitual. Enquanto a diversidade e a diferença forem consideradas hostis à unidade, a guerra então será sempre iminente, pronta para se manifestar em toda a sua carga destrutiva. O primeiro princípio indispensável para a construção de um novo humanismo é, portanto, o da educação para um novo pensamento, capaz de unir diversidade e unidade, igualdade e liberdade, identidade e alteridade”.

Há pais e educadores que idealizam círculos fechados dentro dos quais imaginam poder educar as crianças e adolescentes, preparando-os para lidar com o complexo mundo hodierno. Resta saber como esses futuros cidadãos estarão aptos para dialogar com alteridades sempre mais diversas e diferentes. Nesse sentido, a espiritualidade cristã abre perspectivas muito preciosas para a valorização das diversidades e diferenças. Em nenhum momento de sua vida e ministério Jesus apregoou a uniformidade, mas antes foi capaz de dialogar com todos, dos mais simples aos letrados, com homens e mulheres, com leprosos e prostitutas, com cobradores de impostos e com as autoridades de seu tempo… Não evitava as pessoas. Não fugia delas. Ninguém estava fora do alcance de suas palavras que consolavam, interpelavam, perdoavam, curavam, criavam laços.

Tornamo-nos mais humanos e mais cristãos não quando saímos vencedores em conflitos, mas quando encontramos caminhos para superá-los e garantir que toda pessoa tenha seu direito a viver com dignidade. O sonho da fraternidade universal inclui a pluralidade das culturas, o respeito às diferenças e o cultivo da justiça social e da paz. Os discípulos de Jesus Cristo temos de ser protagonistas nesse tempo. Isso requer a coragem de ir ao essencial da fé cristã: o amor a Deus e ao próximo. Pense nisso.

+ João Justino de Medeiros Silva

Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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