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Educar para libertar

Ilustração de Edgar Vasques, que integra a coleção de Cartões Pedagógicos produzidos em parceria com Grafar e Freireando Porto Alegre para comemorar o centenário de Paulo Freire

No dia 19 de setembro do corrente ano celebrou-se o centenário de nascimento de Paulo Freire, um dos brasileiros mais eminentes e conhecidos mundo afora. O legado de Freire é muito importante não apenas para o Brasil, mas para todo o mundo. As questões apontadas por ele para a educação são de especial pertinência. Elas estão associadas não apenas ao ensino como transmissão de conhecimentos, mas a educação como processo de compreensão crítica do mundo. Freire uniu a alfabetização ao despertar da consciência pessoal de ser sujeito e, consequentemente, de ser alguém cujas ações interferem, diretamente, na construção da história. Seu método não se reduz a alfabetizar ensinando a ler, a escrever e a contar. Com metodologia centrada na conversação, educadores e educandos dialogam sobre a realidade e alargam o horizonte de compreensão do educando e, também, do educador, em favor de uma consciência e práxis cidadãs. A educação eficaz prepara o cidadão livre e consciente da importância de sua participação na polis.

A Igreja, que sempre esteve presente no âmbito da educação, pode identificar em Freire um parceiro em favor da pedagogia evangélico-libertadora. Há convergência de muitos elementos da concepção freiriana e da Igreja acerca da visão da pessoa humana, da cultura e da história. É perceptível a confluência do pensamento de Freire com a práxis de diversas das pastorais sociais, das comunidades eclesiais de base e, especialmente, da pastoral popular. Numa visão mais apurada da caridade cristã, sabe-se bem a distinção entre a necessária assistência social e a urgência da conscientização e da promoção social.

O Papa Paulo VI deixou um parágrafo iluminador na sua Exortação Evangelii Nuntiandi, de 1975: “Entre evangelização e promoção humana, desenvolvimento, libertação, existem de fato laços profundos: laços de ordem antropológica, dado que o homem que há de ser evangelizado não é um ser abstrato, mas é sim um ser condicionado pelo conjunto dos problemas sociais e econômicos…” (EN 31). Pode-se parafrasear Paulo VI: o homem a ser educado não é um ser abstrato, mas um ser condicionado pelo conjunto dos problemas sociais e econômicos. Esse é um dos pressupostos fundamentais de Freire. Ele já evidenciara isso na experiência de Angicos, Rio Grande do Norte, no início dos anos 60. Oxalá futuros estudos aprofundados possam explicitar em quais pontos se entrecruzaram a visão da Igreja e a de Paulo Freire.

Freire é bastante estudado na universidade brasileira e nas universidades estrangeiras. Sua obra, publicada em diversas línguas, atesta que seu pensamento continua a despertar interesse em boa parte dos que se ocupam da educação. Com certeza, o pensamento dele continua pertinente para nossos tempos. Os temas abordados em seus escritos testemunham um itinerário de amadurecimento não meramente fundado no acadêmico, mas cunhado nas práticas. Há que se registrar que o Ministério da Educação, embora tenha Paulo Freire como Patrono da Educação, não abraçou as proposições dele. Ou seja, é equivocado e infundado atribuir a ele qualquer forma de fracasso da educação no Brasil. Lamentavelmente, muitos educadores brasileiros não conhecem as obras de Paulo Freire. Infelizmente, muitos se assustam até com os títulos de algumas delas: “Educação como prática da liberdade”, “Pedagogia do Oprimido”, “Pedagogia da Autonomia”. Ninguém tenha medo do que pode alargar nossa visão do mundo, das relações sociais, da vocação do ser humano para a vida e para a liberdade.

+ João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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Ilustração de Edgar Vasques, que integra a coleção de Cartões Pedagógicos produzidos em parceria com Grafar e  Freireando Porto Alegre para comemorar o centenário de Paulo Freire

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