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“Eles não têm mais vinho”

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O coração do povo brasileiro se volta, durante o mês de outubro, para a pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, rainha e padroeira desta Terra de Santa Cruz. Ela traz em sua iconografia, escurecida pelas águas do rio Paraíba do Sul e pelas chamas das velas acesas em oração, uma mensagem profética. De fato, como afirmou o Papa Francisco, há uma mensagem perene em Aparecida sobre a permanência junto aos pobres, os excluídos e os simples. Na simplicidade da própria imagem, com sua história, emergem os eloquentes ensinamentos de interpretação da Revelação por excelência, que é o acontecimento Jesus. Deus se fez pobre, pequeno e excluído para resgatar a todos.

A liturgia da Solenidade de Nossa Senhora Aparecida traz como evangelho o trecho joanino que relata uma festa de casamento ocorrida em Caná da Galileia. Nessa ocasião, Jesus realiza o seu primeiro sinal. Aqui, a transformação da água, usada para a purificação judaica, em vinho, sinaliza a inauguração de um novo tempo, o que João indica como tempo messiânico. O velho dá lugar ao novo. A água de tempos antigos é transformada em vinho novo e da melhor qualidade. Jesus é o noivo que dá à sua Igreja o vinho da transformação, que a leva ao banquete da vida em plenitude.
Sabemos que a novidade do Reino inaugurado por Jesus não foi aceita por unanimidade. Com efeito, recebeu forte oposição daqueles que, apegados à lei, não se permitiram inebriar-se do vinho novo oferecido pelo Senhor. Sim, o novo assusta, causa medo. Mas, o que é a fé senão acreditar contra todo medo. O que é a esperança, senão lançar-se a um horizonte que não conseguimos vislumbrar completamente.
Anunciar o Reino pode acarretar em perseguições. Isso porque a verdade de Jesus incomoda. Subverte nossas certezas. Desfaz dogmatismos. Exige a conversão da vida no serviço aos irmãos. Interpela a termos um coração pobre e desprendido. Santo Oscar Romero recorda-nos que se a Igreja não é perseguida, ela não é a Igreja de Cristo. A Virgem, primeira seguidora de seu Filho, em Aparecida, apresenta esta mesma mensagem aos simples e oprimidos, fraturados em sua dignidade. A pequena imagem nos anuncia aquele que pode nos conceder a verdadeira realização, nos oferecendo o vinho novo da alegria, que concede à humanidade a reintegração de sua dignidade.

Voltemo-nos para a constatação feita por Maria no evangelho joanino: “Eles não têm mais vinho”. Essa fala de Maria recorda-nos São Paulo quando disse: “Não extingais o Espírito Santo”. Quando nós, Igreja peregrina, não permitimos a ação do Espírito, estamos como aqueles opositores do Senhor que não aceitaram a novidade do Reino. Olhemos, então, para Maria. Nela temos o modelo da Igreja, apresentado pelo livro do Apocalipse: uma mulher vestida de sol. Quão grande é, então, o seu esplendor. Mas seu brilho não é pessoal, e sim reflexo da glória do próprio Deus. É cumprindo a vontade do Senhor que, como Igreja, nos revestimos de sua glória. Maria nos ensina a cumprir a vontade de Deus, colocando-se a serviço; tendo olhos abertos às necessidades dos irmãos; se fazendo pequena e serva de todos. Aprendamos, pois, dela, a mãe da Igreja, a inebriar-nos com o vinho novo do Reino de Deus, rompendo com toda e qualquer estrutura que impeça a realização integral do ser humano.

 

Equipe Arquidiocese em Missão
Arquidiocese de Montes Claros

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