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Família, entre o ideal e o real

            Toda pessoa, de uma forma ou de outra, tem sua experiência de família, por vezes maravilhosa e em alguns casos traumática. Quando o tema é família, evoca-se grande variável de sentimentos e pensamentos. De um lado, há discursos excessivamente idealizados sobre família, que a descrevem de um tal modo harmônico que faz muitos se sentirem estranhos e excluídos de modelos quase perfeitos. De outro lado, há discursos que desfiguram o sentido da família e apostam mais no seu desfazimento, desestimulando jovens a contrair matrimônio.

Curiosamente, quando lemos a bíblia encontramos uma perspectiva realista. Ali não faltam exemplos de variadas situações humanas a indicar o complexo quadro das relações familiares. Nesse sentido, a palavra de Deus apresenta a boa notícia da família, mas sem esconder as contradições e conflitos tão inerentes à convivência entre os membros de uma mesma casa.

Determinada vez, participei de uma apresentação de pesquisa sobre “a família no ensinamento da Igreja”, que acabou por gerar uma grave crise num jovem que estava presente. Sua conclusão foi dolorosa, ao reconhecer que, segundo a pesquisa apresentada, ele não tinha família. Isso se deveu a uma compreensão demasiadamente conceitual por parte da pesquisa, que falhava por desconsiderar o ambiente vital das famílias. Infelizmente, isso pode ocorrer nas instituições e nos discursos que, prezando a família, acabam por insistir, unilateralmente, no ideal e desprezar o real.

Na Igreja, quando se pensa a família, tem-se como ponto de referência a união conjugal estável entre homem e mulher e a bênção dos filhos. Sabe-se, no entanto, que significativa parte das famílias não tem essa configuração. A própria Pastoral Familiar definiu um setor de sua atuação como o de “casos especiais”. Nesse sentido, ao compreendermos que a ação pastoral tem como objetivo cuidar de todas as ovelhas, as comunidades precisarão estar atentas para anunciar o evangelho da família – o ideal, e, ao mesmo tempo, acolher e acompanhar cada família segundo sua história, o real.

Ciente dos desafios do mundo familiar, Papa Francisco intitulou o capítulo VIII da Exortação Apostólica Pós-sinodal Amoris laetitia de modo interessante: “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”. Dessa forma, o Santo Padre abre uma perspectiva eminentemente pastoral que respeita o processo de maturação das pessoas e exige dos pastores e dos agentes da Pastoral Familiar esmerada atenção e zelo no acompanhamento das famílias. Aqui, também, é preciso tomar cuidado para não idealizar a capacidade dos pastores e da Pastoral Familiar, pois nesse caminho somos todos aprendizes. E não há melhor escola para o acompanhamento, o discernimento e a integração na fragilidade do que dispor-se a escutar o outro, cada cônjuge, o casal. Um pré-requisito de grande valia não pode ser esquecido: ninguém escutará com liberdade, amor e misericórdia a história da família do outro, se não se dispuser a escutar a sua história pessoal e familiar. O primeiro universo real da família é o da família de cada um. Sem essa escuta não se vai muito longe.

+ João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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