Notícias

Festas Populares e espiritualidade no Sertão de Minas Gerais

As festas populares alimentam o espírito de solidariedade e fraternidade de inúmeras pessoas no decorrer da história de suas vidas. Desde pequeno recebemos inúmeras experiências de manifestações as mais diversas que imprimem em nosso ser a identidade e a forma de viver nossa espiritualidade. A comunidade de fé torna-se lugar privilegiado de formação de nossa memória espiritual. As experiências do sagrado que fazemos no interior da comunidade torna-se elementos balizadores da visão de Deus que se consolidará em nosso coração no decorrer de nossa vida.

Durante vários séculos a experiência do sagrado fora nos transmitida de forma oral e a partir do mundo da vivência dos nossos  antepassados. Um sagrado ligado à natureza e a vida simples do campo. A magia sobrepunha o elemento explicativo e racional. A vivência sobrepunha o caráter livresco e televisivo que alimenta um novo imaginário e novas práticas espirituais.

Entendemos que a vivência da espiritualidade se relaciona com o ambiente em que estamos inseridos nele. Assim, cada pessoa tem suas vivências e modos diferentes de experimentar e expressar sua espiritualidade. As grandes religiões antecipam uma forma padronizada de liturgia para facilitar e convergir as diversas experiências do sagrado. Pontuo que as liturgias não tem como objetivo unificar de forma homogênea as experiências de fé, mas possibilitar que todos em torno de uma mesma expressão de fé manifestem com liberdade sua experiência de Deus. Sendo assim, as liturgias apesar de sua formalidade acabam permitindo sempre elementos inovadores que possibilitem expressar o rosto das diversas experiências religiosas.

Nas tradições populares a fé se distancia da formalidade teológica para se tornar vida pujante no caminhar da vida. A espiritualidade não é elemento de explicação da teologia ,mas da vivência cotidiana da vida das pessoas.  A fé se deixa dissolver no mundo das experiências onde vida e realidade se misturam com a intensidade do próprio existir humano.

O existir humano deixa-se se moldar pelas experiências da vida. Uma vida que se relaciona com os fatos cotidianos de uma natureza complexa que nos circunda. Se os teólogos vivem debruçados sobre os grandes compêndios, o ser humano  se deixa perder pelo mistério de Deus que se revela nas pequenas coisas do seu cotidiano. É um cotidiano que não separa morte, vida, alegria, tristeza, luto e festa. A vida é um todo com seus diversos acontecimentos e realidades.

É trazendo estas lembranças que recordamos as três festas populares mais tradicionais do sertão de Minas Gerais. Santo Antonio, São João e São Pedro.  Junho vai se aproximando e o clima de festa na roça vai tomando conta de nossa existência.  No mês de junho um encontro  de vários séculos de culturas faz subir a poeira em muitas praças, quadras, ruas e quintais do vasto Estado Minas Gerais. Os colonizadores portugueses nos legaram a Festa Junina. Uma festa que se espalha por todo Brasil e  só perde em popularidade para a cultura do carnaval. Festejamos três santos populares de devoção familiar : Santo Antônio (dia 13, hoje), São João (dia 24) e São Pedro (dia 29).

As bandeirolas coloridas enfeitam as varandas, pátios, quadras e praças das igrejas. No centro a grande fogueira ilumina a noite e aquece os corações das pessoas. O fogo remete à uma série de simbolismos da cultura ancestral da própria história da humanidade. Não é fácil dar uma descrição simplista da colocação da fogueira, sua luminosidade e lugar que ocupa no coração de cada ser humano.  Destacamos o clima intenso de festa, orações e comidas típicas que manifestam a fartura e a alegria da recepção calorosa daqueles que se aproximam.

Em muitos lugares as festas juninas ocupam espaço privilegiado na vida da comunidade. Sua preparação exige tempo. Torna-se necessário preparar as comidas, buscar lenha para a fogueira, preparar os fogos e mastro com seus diversos enfeites. As festas juninas refletem um clima rural, remetendo-nos para nossas origens: a mãe terra. Associado ao aspecto cultural a espiritualidade é pujante. As bandeiras com suas formosuras encantam em tamanho e beleza. As mesmas são seguidas e acompanhadas de fortes vivas. ” Viva Santo Antonio!”, “Viva São João!”, “Viva São Pedro!”.

O primeiro Santo de devoção do mês de junho é Santo Antônio de Lisboa, também conhecido como Santo António de Pádua, de sobrenome incerto.  Primeiramente foi frade agostiniano no Convento de São Vicente de Fora, em Lisboa, indo posteriormente para o Convento de Santa Cruz, em Coimbra, onde aprofundou os seus estudos religiosos através da leitura da Bíblia e da literatura patrística, científica e clássica. Tornou-se franciscano em 1220 e viajou muito, vivendo inicialmente em Portugal, depois na Itália e na França. No ano de 1221 fez parte do  Capítulo Geral da Ordem em Assis, a convite do próprio Francisco, o fundador, que o convidou também a pregar contra os albigenses em França. Foi transferido depois para Bolonha e de seguida para Pádua, onde morreu.

A sua fama de santidade levou-o a ser canonizado pela Igreja pouco depois de falecer, distinguindo-se como teólogo, místico, asceta e sobretudo como notável orador e grande pregador. António é também tido como um dos intelectuais mais notáveis de Portugal do período pré-universitário. Tinha grande cultura, documentada pela coletânea de sermões escritos que deixou, onde fica evidente que estava familiarizado tanto com a literatura religiosa como com diversos aspetos das ciências profanas, referenciando-se em autoridades clássicas como Plínio, o Velho, Cícero, Sêneca, Boécio, Galeno e Aristóteles, entre muitas outras. O seu grande saber tornou-o uma das mais respeitadas figuras da Igreja Católica do seu tempo. Lecionou em universidades italianas e francesas e foi o primeiro Doutor da Igreja franciscano. São Boaventura disse que ele possuía a ciência dos anjos. Hoje é visto como um dos grandes santos do Catolicismo, recebendo larga veneração e sendo o centro de rico folclore.

O segundo Santo é São João Batista.  O mesmo é conhecido como o precursor de Jesus, anunciou sua vinda e a salvação que o Messias traria para todos. João Batista era a voz que gritava no deserto e anunciava a chegada do Salvador. É também o último dos profetas. Depois dele, não houve mais nenhum profeta em Israel. A mãe de João Batista, Santa Isabel, era idosa e nunca tinha engravidado. Todos a tinham como estéril. Mas, então, o anjo Gabriel apareceu a Zacarias quando este prestava seu serviço de sacerdote no templo e anunciou que Isabel teria um filho e que este deveria se chamar João. Zacarias não acreditou e ficou mudo. Pouco tempo depois, Isabel engravidou como o Anjo havia dito. Nesse mesmo tempo, o anjo apareceu também a Maria e anunciou que ela seria a mãe do Salvador. Então, Maria foi visitar Isabel, pois o anjo lhe havia dito que Isabel estava grávida. Quando Maria chegou e saudou Isabel, João mexeu no ventre da mãe e Isabel fez aquela maravilhosa saudação a Maria santíssima: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! De onde me vem que a mãe do meu Senhor me visite? (Lc 1-41-43) Esta saudação de Isabel, inclusive, se tornou parte da oração da Ave Maria recitada diariamente durante a reza do terço pelos cristãos.

São Pedro é o terceiro santo, nasceu em Betsaida, um pequeno vilarejo às margens do lago de Genesaré, ou Mar da Galiléia, no norte de Israel. Seu nome de nascimento era Simão. Quando conheceu Jesus, Simão era casado  e morava em Cafarnaum, importante cidade às margens do lago de Genesaré. Era filho de Jonas e tinha um irmão, André. Este foi quem o apresentou a Jesus. Os dois se tornaram discípulos de Jesus e mais tarde apóstolos. São Pedro era pescador e possuía um barco, em sociedade com seu irmão. Ambos trabalhavam no Mar da Galiléia, um lago de água doce formado pelo Rio Jordão, na região da Galiléia em Israel.

Quando Jesus conheceu Simão, disse a ele uma frase que mudaria sua vida: Você será pescador de homens. A partir daí, Simão começou seguir Jesus. Num determinado momento, Simão confessou a Jesus: Tu és o Messias, o Filho de Deus. Por isso, Jesus disse que, daquele momento em diante, seu nome seria Pedro, Cefas, palavra que significa Pedra.  Mais tarde o significado disso ficou claro: Pedro foi o primeiro Papa da Igreja, tornou-se a Pedra onde a Igreja encontra sua unidade.

O mês de junho é de uma grande riqueza espiritual para o catolicismo popular. As diversas manifestações de fé animam a esperança das pessoas. São homens e mulheres de fé que celebram com alegria a experiência da vida. A dimensão da festa toma lugar nos corações e na geografia de cada  canto deste vasto sertão das gerais. Devoções que disputam com a hipermodernidade espaços preciosos no tarefa de semear esperança. Apesar das ruas asfaltadas, dos quintais cimentados, das luzes reluzentes dos shopping e da descrença semeada pela secularização presente, o cheiro da canjica e do quentão continua invadindo nossa memória secular.  O som continua vindo de muito longe nos lembrando: ” a fogueira tá quente, a quadrilha tá boa… São João … São João… acorda a fogueira do meu coração”. As bombinhas de salão e os traques com seus suaves estalar continuam gritando em nosso coração: Viva Santo Antônio…Viva São João …Viva São Pedro.

Texto enviado por Pe. Antônio Alvimar – Paróquia São Pedro Apóstolo para a edição nº07 da Revista Clarão do Norte da Arquidiocese de Montes Claros.

____________________________________________________________________
***Viviane Carvalho – Assessoria de Imprensa Arquidiocese de Montes Claros (38 Vivo) 9905-1346 (38 claro) 8423-8384 ou pelo e-mail: [email protected]

Artigos de Dom João Justino

Arcebispo Metropolitano de Montes Claros (MG)

Luz para os Meus Passos

AGENDA

SuMoTuWeThFrSa
 

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

13

14

15

16

17

18

19

20

21

22

23

24

25

26

27

28

29

30

31

 
 « ‹ago 2022› » 

REVISTA

 

ENQUETE

No ano em que realizaremos a IV AAP (Assembleia Arquidiocesana de Pastoral) a Diocese de Montes Claros comemora quantos anos de criação?

Ver resultados

Carregando ... Carregando ...