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Gramática do cuidado

            Para cada primeiro dia do ano civil, celebração do Dia Mundial da Paz, o Papa escreve uma mensagem. Para 1º de janeiro de 2021, o Papa Francisco quis realçar, à luz dos desafios da pandemia do novo coronavírus, a importância do cuidado nas relações interpessoais e na relação com a criação, intitulando sua mensagem: “A cultura do cuidado como percurso de paz”. Quem acompanha o ensino do Santo Padre já se deu conta de sua ênfase a favor da cultura do encontro e da ternura para superação da cultura da indiferença e do descarte.

            A Bíblia está repleta de relatos dos cuidados de Deus com a humanidade, desde os primeiros seres humanos, Adão e Eva, até o auge do evento Jesus Cristo, quando o próprio Deus se encarnou para cuidar da humanidade e trazer-lhe a vida em abundância. Lembra o Papa que na origem do Shabbat está inscrito o cuidado com a criação pelo vínculo do culto divino com o necessário descanso. Os jubileus eram celebrados no mesmo tom. Cuidar dos mais vulneráveis dando-lhes novas chances de vida. A identidade de Jesus como Bom Pastor, que não despreza a ovelha perdida mas vai em sua busca, desvela o olhar cuidadoso de quem não deixa perder nenhum dos que recebeu.

            Os seguidores do Evangelho se ocuparam, em todos os tempos, com o exercício do cuidado com os mais frágeis. A Igreja fez-se presente e protagonista na origem dos hospitais, albergues para os pobres, orfanatos, lares para crianças, abrigos para migrantes, casas de recuperação de dependentes químicos, asilos de idosos e tantas outras modalidades de iniciativas para cuidar dos mais necessitados e vulneráveis. Assim, pode-se dizer com o Papa Francisco, que a diaconia “tornou-se o coração pulsante da doutrina social da Igreja” e de onde se pode haurir a “‘gramática’ do cuidado: a promoção da dignidade de toda a pessoa humana, a solidariedade com os pobres e indefesos, a solicitude pelo bem comum e a salvaguarda da criação”. Esses elementos gramaticais do cuidado funcionam como uma bússola, afirma o Papa, “para dar um rumo comum ao processo de globalização, ‘um rumo verdadeiramente humano’”.

            No momento em que no Brasil cada município inicia um novo mandato de prefeitos e vereadores, é oportuno propor a “gramática do cuidado” como horizonte para a ação dos responsáveis políticos de nossas cidades. Lembrem-se eles de que “a cultura do cuidado, enquanto compromisso comum, solidário e participativo para proteger e promover a dignidade e o bem de todos, enquanto disposição a interessar-se, a prestar atenção, disposição à compaixão, à reconciliação e à cura, ao respeito mútuo e ao acolhimento recíproco, constitui uma via privilegiada para a construção da paz”. Com o Papa Francisco, exorto a todos os prefeitos e vereadores, também os secretários municipais: “Não cedamos à tentação de nos desinteressarmos dos outros, especialmente dos mais frágeis, não nos habituemos a desviar o olhar, mas empenhemo-nos cada dia concretamente por ‘formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros’”.

Que 2021 seja o tempo para os governos municipais acertarem o passo no acompanhamento de todos os cidadãos. Eles têm direito à saúde, à moradia, à educação, à segurança, ao trabalho, à alimentação e outros. Quem se candidatou para governar não pode fugir da responsabilidade que ganhou nas urnas. Deixem-se todos ser regidos pela gramática do cuidado.

 

+ João Justino de Medeiros Silva

Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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