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É a humanidade que precisa mudar

Quando se vive em tempos de pandemia colhe-se a oportunidade de muitas releituras e revisões. A interrupção do ritmo frenético da sociedade contemporânea parece impor a necessidade de rever o tipo de sociedade que estávamos a construir. É hora fecunda de conversarmos sobre o presente desafiador e buscarmos novas perspectivas: para onde queremos ir? O que, realmente, é importante para a vida digna das pessoas? Que demandas de mudanças estão a nos incomodar? Como, pessoalmente, contribuirei para um futuro diferente, marcado pela maturidade de quem superou os desafios de uma grave pandemia?

Busco inspiração no ensino do Papa Francisco, em sua Carta Encíclica Laudato si’, sobre o Cuidado da Casa Comum, publicada há cinco anos, em 24 de maio de 2015. Ao iniciar o capítulo VI, “Educação e Espiritualidade Ecológicas”, Francisco afirma: “Muitas coisas devem reajustar o próprio rumo, mas antes de tudo é a humanidade que precisa de mudar”. Essa afirmação poderia passar despercebida. Não porque diz algo comum, mas sim porque traz o incômodo de uma verdade que relutamos por aceitar. E, por isso, tapamos os ouvidos e vedamos os olhos para não termos de nos submeter a mudanças que não desejamos e que, portanto, desinstalam.

Talvez uma das mudanças mais exigentes apontadas pelo papa argentino seja a necessidade de um outro estilo de vida. O paradigma tecno-econômico, associado à sociedade de mercado, ejetou o desejo de possuir e consumir presente no coração humano. As crianças, ainda bem pequeninas, assimilam que é bom possuir bens, que por sua vez precisam ser comprados e, para tal, é preciso ter dinheiro. Não sabem, ainda, da importância do trabalho, mas são capturadas pelo brilho das mercadorias. Entendem, logo, que há sempre um “novo” depois do descarte do “velho” e “usado”. Não há uma crítica que os ajude a perceber que o mercado opera pela lei da sedução, com discursos para todas as idades e situações. As crianças aprendem a ser consumistas e este aprendizado denota que elas estão inseridas numa sociedade e cultura consumistas.

Não será simples para a humanidade a escolha de um outro estilo de vida. Aqui e acolá ocorrem transformações drásticas por razões diversas. “Não pensemos só na possibilidade de terríveis fenômenos climáticos ou de grandes desastres naturais, mas também nas catástrofes resultantes de crises sociais, porque a obsessão por um estilo de vida consumista, sobretudo, quando poucos têm possibilidades de o manter, só poderá provocar violência e destruição recíproca” (Laudato si’, 204). Trabalhar pela superação das desigualdades sociais tem relações profundas com o evangelho de Jesus Cristo. E aqui está um dos valores mais importantes do Evangelho: a proposição de uma vida simples, voltada para o agir solidário e para a comunhão fraterna.

Descubra quais mudanças você precisa viver. Creio que um dos efeitos da pandemia para as pessoas poderá ser a abertura de um espaço interior, em que cada um terá a chance de perceber que se pode viver com qualidade de modo mais sóbrio, que o ócio tem seu lado criativo, que se pode aprender com a falta, que há mais alegria em ser solidário do que em acumular para si, que tudo passa e que só o amor pode permanecer.

+ João Justino de Medeiros Silva

Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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