Artigos Artigos de Dom João Justino

Jesus e os educadores

            O contato com os evangelhos possibilita ao leitor encontrar os traços da identidade de Jesus, entre os quais se destaca o de educador. Isso, tanto para os que creem e leem os evangelhos como livros sagrados, quanto para os que se aproximam desses livros apenas com interesse literário. O simples fato de Jesus ser identificado como “mestre” nos relatos evangélicos é suficiente para indicar que ele ensina e, como tal, é um educador. E quais são as características de seu modo de educar?

            Antes de tudo, percebe-se que a atenção de Jesus para com as pessoas é fundamental para seu ensino. Ele não se contenta em reconhecer as multidões como “ovelhas sem pastor”, mas põe-se a ensiná-las. Ele se volta para as pessoas, chamando-as pelo nome ou interpelando-as diretamente, a partir de um convite ou de um apelo. E quem dele se aproxima sempre o verá voltar-se com expressão atenta de quem se dispõe a escutar. Ao responder perguntas, ele não se furta de olhar com amor a pessoa demandante. E não aceita que tentem afastar dele aqueles que gritam seu nome ou mesmo as crianças que, espontaneamente, correm ao seu encontro. Muitos que o indagam obtêm como resposta uma nova pergunta. Jesus utiliza o recurso de fazer que a própria pessoa esclareça sua pergunta e perceba o alcance de sua questão. E nenhuma das perguntas colocadas por Jesus aos seus interlocutores é mais pungente que esta: “O que queres que eu te faça?” (Mc 10,51).

            Por seu modo de ser e de agir, Jesus atrai as pessoas. Nunca as amedronta. Em outras palavras, ele não recorre a nenhuma forma de ameaça para intimidar quem quer que seja. Antes, ele abre espaços de confiança para atingir o mais profundo do coração. Por vezes, dispõe-se a ir ao encontro do outro em sua casa e valoriza, assim, a pessoa, sua história e seu contexto. Sua palavra ressoa cheia de bondade e de verdade. E, por isso, é uma palavra libertadora e reintegradora. Pode-se dizer que o conteúdo do ensino de Jesus é o Reino de Deus. E seu modo de ensinar é coerente com os valores do Reino, de tal modo que conteúdo e método se confundem, pois em seu modo de ensinar se revela nitidamente como se vive o conteúdo ensinado.

            Nos tempos atuais, muitos métodos de ensino podem ser encontrados. A história da pedagogia testemunha uma longa fileira de exímios educadores que deixaram discípulos e obras. Estabelecem-se debates entre correntes de diversos tipos. Podem ser encontradas escolas com propostas pedagógicas bem definidas e, inclusive, muitas que desconhecem a importância da escolha metodológica no ensino.

            Ao pensar um cristão que é educador, é pertinente propor que essa pessoa se inspire, também, em Jesus educador. Isso não pode se dar sem a leitura dos evangelhos sob a ótica da praxe educativa de Jesus. O cristão que abraçou a entusiasmante tarefa de educar há de se comprometer com um estilo de relação em que pese a prática dos ensinamentos de Jesus. E, por isso, haverá de primar pelo valor fundamental de cada pessoa, pelo diálogo e respeito, pela valorização da alteridade, pela escuta atenta, entre outras atitudes. Um grande desafio para nós educadores católicos é traduzir nas relações de ensino os valores do evangelho. Quando não conseguimos isso, uma lacuna se inscreve. E já não somos mais discípulos do Mestre. Infelizmente.

+ João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

 

 

*Imagem retirada do Blog em passos lentos chego lá

 

Adicionar Comentário

Clique aqui para postar seu comentário

Artigos de Dom João Justino

Arcebispo Metropolitano de Montes Claros (MG)

Luz para os Meus Passos

AGENDA

SuMoTuWeThFrSa
 

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

13

14

15

16

17

18

19

20

21

22

23

24

25

26

27

28

29

30

31

 
 « ‹dez 2021› » 

REVISTA

 

ENQUETE

No ano em que realizaremos a IV AAP (Assembleia Arquidiocesana de Pastoral) a Diocese de Montes Claros comemora quantos anos de criação?

Ver resultados

Carregando ... Carregando ...