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No princípio, há comunhão!

O livro do Gênesis e o Evangelho de São João iniciam numa mesma lógica: “no princípio”. Contudo, há uma diferença significativa em ambos. Enquanto no texto do Primeiro Testamento lemos, na sequência, o que Deus fez e como fez, o quarto evangelista se demora naquilo que havia antes do fazer, se detendo no próprio ser de Deus. Por isso ele diz: no princípio era o Verbo, e ele estava com Deus e era Deus (Jo 1,1). A esses se assomam, então, o Espírito, que os envolve e os transborda. Assim, não há, no princípio, a solidão do Um, ou a divisão dos Dois, mas a comunhão dos Três, como bem afirma um grande teólogo brasileiro.

Foi esse Deus Uno-Trino que, no primeiro livro da Bíblia, criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança (Gm 1,26). A antropologia teológica cristã viu nessas palavras o indicativo de que a humanidade fora criada dentro e para a lógica da comunhão. Não uma comunhão qualquer, senão aquela a que a teologia chamou de pericorese. Apesar do termo pouco usual, poderíamos traduzi-lo como “comunhão de amor”. O adjunto “de amor” confere o tom essencial a essa comunhão, afinal, como bem lembra Christian Duquoc, essa comunhão é suscitada nas diferenças. Trata-se de uma unidade de singularidades.

Celebrar a solenidade da Santíssima Trindade é, assim, recordar que no início de nosso ser há um chamado à vida trinitária, e um convite à instauração de uma civilização aos moldes do Deus Uno-Trino. Noutros termos, devemos fazer crescer uma realidade em que todas as alteridades sejam respeitadas, acolhidas e assumidas como rico presente de Deus em nosso meio. Isso porque, apesar de ser um só Deus, ele é revelado como trino, cujas características pessoais não se confundem ou se diluem, apesar da unidade.

Santo Agostinho descreveu os Divinos Três como o Amante (Pai), o Amado (Filho) e o Amor (Espírito Santo). Seguindo sua lógica, com Enrique Cambón podemos afirmar que o Pai é a fonte e origem eterna do Amor, e a Ele refletimos quando nos tornamos fontes de um amor gratuito; o Filho segue sendo sempre o acolhimento transparente e repleto de gratidão do Amor, e O refletimos quando nos deixamos amar, sabendo acolher com gratidão o amor dispensado a nós; o Espírito é a própria reciprocidade transbordante de amor entre o Pai e o Filho, e, por isso, todas as vezes que criamos uma sociedade de relações abertas ao bem comum O refletimos.

É verdade que a Santíssima Trindade permanece sendo um mistério para nós, que apenas conseguimos balbuciar seu inefável esplendor, mas é igualmente verdade que pela humanização de Deus em Jesus Cristo nós podemos tatear tamanho mistério. Por sua vida e ministério, compreendemos que a relação é nosso princípio (Cardeal José Tolentino Mendonça), e que essa relação, vivida na unidade da Igreja, é a mesma manifesta na Comunhão Eucarística. Como os grãos de trigo, embora muitos, são unidos em um só Pão (Santo Agostinho), assim também nós, em torno de um só altar, com uma só fé e movidos por um e mesmo Espírito, embora muitos, devemos resgatar nossa comunhão.

Deste modo, ao participarmos das Celebrações Eucarísticas, e, sobretudo, das procissões na próxima quinta-feira, dia dedicado a Corpus Christi, recordemos que daquela Hóstia consagrada se expandem os inúmeros corpos de Cristo que necessitam de atenção. Isso porque eles sentem fome, frio, sede… precisam de atenção, de carinho, de acolhida. A Comunhão recebida sem comunhão com os irmãos é, para nós, causa de condenação (1Cor 11,17-22.27-34). Digo isso não para proibir de honrar a Cristo com tais dons, mas para exortar-te a oferecer ajuda aos pobres junto com estes dons (São João Crisóstomo). Recordemos que, ao fazer isso aos irmãos pequeninos, é ao próprio Cristo que fazemos (Mt 25,31-46).

 

Equipe Arquidiocese em Missão
Arquidiocese de Montes Claros

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