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O caminho é o diálogo

A Igreja, ao buscar a fidelidade ao evangelho, é marcada pela defesa e pela prática do diálogo. Um dos grandes marcos de sua história recente foi a realização do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), convocado por São João XXIII, o “Papa do diálogo”. Ao propor a realização de um Concílio Ecumênico, o “Papa Bom” trazia em seu coração a esperança e a certeza de que o encontro dos bispos do mundo inteiro seria um exercício excelente de escuta, diálogo e decisões de importância para o futuro da missão da Igreja no mundo. E o Concílio foi, verdadeiramente, esse exercício delicado, enriquecedor, ousado e promissor não apenas para a Igreja, mas também para a sociedade. Pode-se elaborar uma análise do Vaticano II sob a luz do diálogo. Nesse caso, vai se descobrir que o evangelho fecunda a história também quando sustenta, especialmente nos cristãos, o firme empenho de trilhar o caminho do diálogo.

Quando tratou da questão ecumênica, da relação da Igreja Católica com as outras Igrejas e comunidades eclesiais e a questão do diálogo inter-religioso, o Concílio apontou horizontes: o diálogo interno na Igreja, um dos fundamentos para a sinodalidade, qual experiência de caminhar juntos na mesma missão; o diálogo entre cristãos, considerando as outras confissões religiosas, fundadas na mesma fé em Jesus Cristo como Filho de Deus; o diálogo com outras tradições religiosas que confessam crer em Deus; e o diálogo com os homens e mulheres de boa vontade que não confessam alguma fé em Deus. Inspirados no evangelho, nós católicos precisamos ser devotamente partidários do diálogo. Quando dele formos tentados a nos afastar, lembremo-nos de Jesus, em diálogo com Pilatos; lembremo-nos de São Francisco de Assis, em diálogo com o Sultão do Egito; lembremo-nos de Santa Catarina de Sena, em diálogo com o Papa Gregório XI.

No âmbito da política, seja nacional seja internacional, verifica-se que onde se constrói o diálogo há sempre maiores chances de sucesso na resolução dos conflitos. Instituições internacionais, como por exemplo a Organização das Nações Unidas – ONU, trabalham pela via da diplomacia, cujo fundamento é a capacidade de dialogar. Há entidades religiosas e não-governamentais que trabalham pela paz e resolução de conflitos, criando mesas de diálogos e apoiando iniciativas de encontros entre partes discordantes.

No Brasil, as instituições políticas enfrentam tempos de encruzilhada das polarizações, que tendem a desfavorecer a escuta do diferente e a negar a construção de soluções pela via do diálogo. Toda palavra que incite ao ódio e à acusação leviana rasga o tecido social. O diálogo contém em si um potencial reconciliador, nada exclusivo das religiões. Nós brasileiros precisamos redescobrir o sentido restaurador do diálogo, que na busca da verdade aponta para uma longa estrada a percorrer. Sem idealizações que poderiam colocar como impossível a marcha das conversações, diante da pluralidade das formas de pensar, das tradições e dos diferentes posicionamentos, descobre-se, mais uma vez, que o caminho é o diálogo. Às vezes demorado, longo, intenso, ele é a aposta mais crível de possibilidade de convivência humanizada e de superação de qualquer forma de violência. Ele é o itinerário para a construção da paz.

+ João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo Metropolitano de Montes Claros-MG

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