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O ser humano pode muito, mas não pode tudo

Imagem: esbrasil.com.br

Todos nós, seres humanos, nascemos completamente dependentes uns dos outros. Nenhum de nós sobreviveria se não tivesse recebido os cuidados próprios dos primeiros anos de vida. Paulatinamente fomos crescendo, adquirindo linguagem e habilidades, movidos pela pulsão de vida e deparando-nos com os riscos que podem produzir fracassos e perdas, até mesmo da vida. Em meio a desejos e birras descobrimos que há limites pequenos e outros intransponíveis. Alguns “nãos” ouvidos devem ter contribuído para a percepção fundamental de que podemos muito, mas não podemos tudo. Nesse sentido, pode-se dizer que felizes são aqueles que puderam conviver com pais ou responsáveis que semearam sonhos e estabeleceram algumas balizas para a estrada da vida.

A Bíblia trata desse drama num relato cheio de significados quando fala da vida de Adão e Eva, no Jardim do Éden, e da desobediência do casal. O Senhor Deus, que tudo criara, colocou quase tudo à disposição do homem e da mulher. Podiam comer de todos os frutos, menos do fruto da árvore da ciência do bem e do mal. A tentação, representada pela serpente como o mais astuto dos animais, seduziu Adão e Eva para a ruptura, a desobediência. Introduziu a dúvida em relação à palavra do Criador e os estimulou a não aceitar o limite, rejeitar a lei, ser como Deus. As consequências dessa não escuta do interdito foram desastrosas e o seu auge foi o fratricídio: Caim mata o irmão, Abel.

Essas belas páginas do Gênesis parecem iluminar o processo de amadurecimento de cada ser humano. Podemos muito, mas não podemos tudo. Cada vez que uma pessoa rompe a linha do interdito ela provoca algum grau de desequilíbrio nas relações fundamentais. Nalgumas vezes essa linha não está tão clara ou visível diante de nós. Um longo debate acerca da lei natural e da cultura envolve pensadores de diferentes campos como da filosofia, da teologia, da antropologia, do direito, da psicologia e outros. O fato é que a vida em sociedade supõe alguma forma de lei para garantir a convivência pacífica e respeitosa entre as pessoas. Esse fenômeno se dá em todas as formas de instituição social, desde a família até a comunidade das nações.

Na Igreja católica, a título de exemplo, temos a Palavra de Deus como a norma das normas. Seus membros devem buscar configurar sua vida cada vez mais aos ensinamentos das Escrituras. É um percurso dificílimo. Como instituição, a Igreja tem, ainda, o Código de Direito Canônico, que estabelece deveres e garante direitos de cada fiel. Vez por outra, modificam-se ou são estabelecidos novos cânones para proteger as pessoas do arbítrio de alguns. Dessa forma, pode-se afirmar que, no âmbito eclesiástico, muito se pode fazer, mas não tudo, pois há que se respeitar os princípios e as leis que nos regem.

Quando se pensa na República temos de nos remeter à Constituição, lei suprema que rege os poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – e sua integração. Revela desconhecimento do estatuto republicano quem pensa que aquele que preside a República, ou suas instituições, pode tudo. O que está acima de todos os poderes e seus representantes é a Constituição. Observada, ela nos livra dos desmandos daqueles que foram eleitos para legislar e executar ou nomeados para julgar. Infelizmente, a tentação de não aceitar limites, de rejeitar a lei nunca abandonou o coração humano. Por isso, rogo a Deus, mencionado no preâmbulo da Constituição do Brasil de 1988, que nos livre de abusos de qualquer pessoa ou instituição que pensa que pode tudo.

+ João Justino de Medeiros Silva

Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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