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Um Quilombola e sua vocação

Ele é da Comunidade Quilombola (Caxambu) Brejo dos Crioulos – Município de Varzelândia- MG, tem 26 anos e é o terceiro filho entre 7 irmãos do casal Marcelo Batista Lima e Paula Cardoso de Oliveira. Estou falando do primeiro Quilombola a se tornar padre na Arquidiocese de Montes Claros, Maciel Batista de Lima será ordenado sacerdote no próximo dia 17 de fevereiro, sábado, às 19h na cidade de Varzelândia, pertencente à diocese de Janaúba.  A ordenação será presidida pelo Arcebispo Dom José Alberto Moura.Vamos saber um pouco mais sobre a história desse jovem de fé.

Conte-nos sua experiência com os Quilombolas:
Maciel:
Brejo dos Crioulos é um território quilombola, que abrange 3 municípios, São João da Ponte, Varzelândia e Verdelândia. Sou nascido na comunidade de Caxambu I, município de Varzelândia, experimentei as lutas e conflitos constantes do Brejo pelo seu reconhecimento de todos os seus direitos e deveres enquanto comunidade tradicional.  Hoje, estamos comemorando 18 anos de luta e resistência pelos nossos direitos começando sobretudo, com reconquista do nosso território que foi totalmente grilado por grandes latifundiários. Nesses 18 anos tivemos muitas conquistas, primeiro começando pelo o reconhecimento da nossa comunidade como quilombola pela Fundação Palmares, Ministério Público, INCRA e, por fim, em 2011 depois de muitas lutas e protestos fomos reconhecidos judicialmente como remanescentes de quilombo, por sua cultura, história e tradição através de um decreto assinado pela então Presidente Dilma Rousseff, pedindo a desapropriação dos fazendeiros do nosso território. No decorrer desses dezoito anos conquistamos 80% das nossas terras, agora estamos aguardando que o INCRA comece o processo de demarcação e titulação de nosso território, mas enquanto isso, a luta continua, contudo, contando sempre com cooperação de todos os quilombolas, para que permaneçam unidos num só ideal que não se reduz apenas a reconquista das terras, mas também por qualidade de vida melhor, por saúde e educação e revalorização da nossa identidade cultural e religiosa.

Como se deu a sua vontade de servir a igreja?
Maciel:
 Por ser nascido de uma comunidade tradicional quilombola, cujo povo já traz em si uma identidade e expressividade religiosa muito singular, foi dessa realidade, claro com a base educacional religiosa que recebi dos meus pais que impulsionaram e despertaram em mim, o desejo de  servir a Igreja e de modo especial  como sacerdote.

Quando você percebeu que queria ser padre?
Maciel:
Lembro-me certa vez, quando tinha apenas 7 anos de idade, disse a minha a Mãe: “Quando eu crescer eu quero ser padre”. Minha querida mãe, com um olhar piedoso, e ao mesmo tempo surpreendida com o que acabara de ouvir, simplesmente respondeu: “meu filho, se for da vontade de meu bom Deus tu serás”. Assim começa-se um sonho ainda um pouco imaturo de uma vida vocacional que com auxílio e graça de Deus se tornará realidade. Creio que minha família, mesmo com todas as dificuldades e imperfeições, foi a primeira base espiritual e impulsionadora da minha vocação ao sacerdócio.

Como foi a escolha do sacerdócio para você?
Maciel:
Todos nós temos os nossos sonhos e inquietações, no meu caso não foi diferente, sempre recebi dos meus pais semianalfabetos, apesar de todos as dificuldades que a minha família enfrentava, o incentivo para estudar. Não tive um ensino fundamental e médio de qualidade, e isso é o desafio educacional que os nossos Jovens quilombolas enfrentam até hoje apesar de alguns avanços em termos de políticas públicas educacionais.  Quando ainda adolescente tive dois sonhos, pensei em ser advogado ou professor de história, porém, a vocação ao sacerdócio falou mais alto, foi então que decidi com o apoio e do meu pároco Padre José Carlos Lima Pinto da Paróquia Bom Jesus de Varzelândia, seguir a caminhada vocacional rumo ao sacerdócio.

A sua família aceitou? Houve estranheza por parte de amigos e familiares?
Maciel:
Tive a graça por ser de uma família muito religiosa, especialmente através dos meus dois grandes mestres, meus pais . O meu avô Maurício Barbosa Lima, conhecido como o “papa”, me ajudou muito. Encontrei em sua experiência de fé o apoio para iniciar a caminhada.  Os meus familiares de modo geral, sobretudo os evangélicos e os amigos ficaram  surpresos e sem entender, até porque eu fui o primeiro jovem da Paróquia Bom Jesus e de Varzelândia e, sobretudo do Brejo a tomar a decisão de querer ser padre. Hoje, com todo apoio e estímulo do Padre José Carlos, temos mais 3 jovens estudando no seminário.

Quantos anos você se dedicou aos estudos para finalmente se tornar um padre?
Maciel:
A formação de modo geral para os sacerdotes diocesanos são 8 anos. Aos 18 anos ingressei no Seminário Propedêutico “Maria, Mãe da Igreja” pela diocese de Janaúba – MG. Em 2009 iniciei no Seminário Maior Arquidiocesano Imaculado Coração de Maria em Montes Claros, cursos de filosofia e teologia. Sendo ao todo 3 anos de filosofia e 4 de teologia.

O que você espera do sacerdócio?
Maciel:
Como afirma (Hb  5,1-2): “ Todo sacerdote tirado do meio do povo é constituído em favor do povo em sua relação com Deus”. Assim espero viver o meu sacerdócio. Tendo a plena consciência de que esse ministério não é mérito meu, mas dom e graça do bom Deus para melhor servi-Lo na pessoa dos irmãos e irmãs.

Qual o seu lema escolhido para servir a igreja?
Maciel:
“Ó Senhor sois minha herança e minha taça, meu destino está seguro em vossas mãos!” (Sl 15,5) Desde quando iniciei meus estudos no seminário, e ao tomar conhecimento do Salmo 15, sobretudo rezando-o nas orações das completas , bem como depois no meu ministério diaconal, sempre tive a plena certeza que o destino da minha vida e minha vocação encontram-se a razão de ser nas mãos de Deus. Assim, com certeza será também o meu ministério sacerdotal.

Existe algum leigo, padre ou bispo que tenha inspirado você a seguir nessa vocação?
Maciel:
Com certeza além dos meus pais, uma pessoa que influenciou totalmente minha vida para o sacerdócio, foi o meu Pároco Pe. José Carlos Lima Pinto.  Lembro que a primeira vez que tive a oportunidade de conhecê-lo foi em uma missa numa pequena comunidade rural chamada “Para Terra”, próximo a minha comunidade. Foi nessa missa, que por vez, eu estava cantando e tocando violão, que ele sem me conhecer me fez o convite para ser padre. A partir de então, foi orientando-me e, por fim conduziu-me para seminário, dando-me todo incentivo durante todo o meu processo formativo. Portanto, ao Pe. Zé Carlos, além tê-lo como um grande amigo, foi e continua sendo para mim um grande incentivador vocacional e mestre espiritual, a ele minha eterna gratidão por tudo.

Qual mensagem você deixa para quem quer nos tempos de hoje seguir o sacerdócio, a vida religiosa?
Maciel:
Vale apena seguir Jesus. E na medida em que vamos seguindo-O, vamos compreendendo o nosso verdadeiro discipulado, sua mística e assim nos configurando com o Cristo Jesus, nosso Mestre e Salvador para melhor servi-Lo na pessoa dos nossos irmãos e irmãs.

***Viviane Carvalho – Assessoria de Imprensa Arquidiocese de Montes Claros  (38 Vivo) 9905-1346 (38 claro) 8423-8384 ou pelo e-mail: [email protected]

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